Postado por: SIRVA-SE ● 19/05/2010
Por Michel Rios

Trazendo às terras alagoanas 14 filmes de diversos países, desde a última sexta-feira, o II Panorama Sesi – Mostra Internacional de Cinema exibe, em quatro sessões diárias, longas que já circularam em festivais e mostras fora do Brasil, mas ainda inéditos em Maceió. As atrações mostram o que está sendo feito no audiovisual de Alemanha, Espanha, Portugal, Coréia, Hong-Kong, Estados Unidos, Casaquistão, Chile, França, Suíça, Dinamarca, Turquia, Romênia e Brasil.
Na segunda noite do evento, foram exibidos dois filmes de países distantes, com poucos elementos em comum. De um lado, na Europa, Os Falsários, filme alemão vencedor na categoria Filme de Língua Estrangeira no Oscar em 2009, trata sobre a maior operação de cópias de moedas da história, no auge da Segunda Guerra Mundial. Do outro, na América Latina, Tony Manero (Chile) conta as façanhas de um fanático pelo personagem de John Travolta no filme ‘Os Embalos de Sábado à Noite’ em meio à ditadura militar comandada por Augusto Pinochet.
Quanto vale a sua vida?

‘Os Falsários’ conta a história de Salomon Sorowitsch, russo judeu e exímio falsificador, que circula na boêmia noite alemã na década de 30, até que, em 1939 é capturado pela SS germânica.
Sally é encaminhado para um campo de concentração comum, mas logo destaca-se por suas habilidades artísticas e é transferido para um campo especial, onde é designado para gerenciar a maior operação de falsificação de moeda da história.
Baseado no diário de Adolf Burger, um dos companheiros de prisão de Sally, como é chamado o falsificador, o longa alemão é um típico filme sobre acontecimentos históricos. O enredo se desenrola a partir do drama de judeus especialistas em impressão e produção gráfica, obrigados, pelos nazistas, a produzir notas falsas que serão enviadas para todo o mundo. A ação, tramada pelos integrantes do partido, fortaleceria o regime nazista. ‘Os Falsários’ questiona até que ponto é válido romper valores morais em troca de regalias, ou até mesmo, da vida.
O filme se mostra bastante eficiente sobre a história dos acontecimentos, porém, pouco consistente na dramaticidade. O diretor buscou outro caminho para desenvolver a trama. Negou os detalhes do Holocausto, e resolveu mostrar o lado “piedoso e justo” do III Reich. Com fotografia quase monocromática, os tons lembram o clima frio e hostil da II Guerra Mundial na Europa.
Os Falsários é mais um filme sobre o Holocausto com uma história diferente, onde alguns judeus são privilegiados por suas habilidades. Não impressiona e aguça ainda mais o sentimento de impotência diante da maquina nazista, como tantos outros filmes do gênero.

Já ‘Toni Manero’ conta a história de Raúl Peralta, um sociopata fanático pelo personagem de John Travolta no filme ‘Os embalos de Sábado à Noite’. Peralta conhece todos os passos de Tony, e é capaz de reproduzir diálogos do filme em inglês mesmo sem saber o idioma.
Enquanto se prepara para participar de um tosco concurso de imitações na TV Chilena, ele se mostra capaz de tudo para ganhar. No primeiro momento, o filme parece ser pouco interessante, mas vai ganhando força com atuação marcante de Alfredo Castro, que apresenta ao espectador a verdadeira personalidade de Raúl.
Em meio à ditadura militar de Pinochet, que serve como pano de fundo para a trama – só se deixando transparecer em alguns momentos-, o drama se desenrola com diálogos pouco interessantes. Raúl é um mesquinho e patético assassino em série, daqueles que você vai odiando durante cada acontecimento dentro do filme. O segundo filme de Pablo Larraín conta a história de um homem que não tem identidade própria e espelhado em Tony Manero, busca construir um alterego. A loucura e a obsessão o levam a passar dos limites.
A construção do personagem se torna mais instigante ao saber que o assassino ‘comanda’ todos ao seu redor, como uma espécie de referência. Todos participam e colaboram para que Raúl atinja o objetivo de dançar igual ao personagem de Travolta.
Tony Manero é um bom filme, que utiliza os recursos e características bem marcantes no cinema latino americano. Câmera nervosa, que acaba por imprimir um maior realismo às cenas e fazendo com que o espectador se sinta inserido na história, com recursos de desfoque exagerados, causando certa estranheza em algumas cenas.
Maturidade para perceber quando tudo acaba

Juventude, traição, paixão e amores. O terceiro dia da Mostra de Cinema Internacional no Centro Cultural Sesi foi marcado por esses sentimentos. O longa brasileiro ‘Juventude’ abriu o domingo, encerrado pelo francês ‘Partir’.
No filme de Domingos de Oliveira , ele mesmo atua como Antônio, contracenando com Aderbal Freire Filho (Ulisses) e Paulo José (Davi). O trio de velhos amigos se encontra para contar 50 anos de histórias. Na trama, as mulheres sempre são citadas como assunto principal no repertório de cada personagem. No entanto, eles se dão conta que o tempo passou, e resolvem tomar algumas decisões que implicam em uma série de acontecimentos em suas vidas.
O filme avança e os diálogos vão construindo uma estética bem particular de Domingos. O diretor não utiliza sofisticados recursos técnicos para produzir o filme. Fica a impressão de um longa feito com poucos recursos financeiros, dando ênfase ao roteiro e atuação memorável do trio.
‘Juventude’ é emocionante e engraçado, certamente um ótimo filme brasileiro. Alguns podem achar tosco por conta da pobre linguagem visual imprimida por Domingos, mas que ganha força e consistência nos diálogos, o que faz com que a concepção técnica e visual possa ser deixada em segundo plano.

O segundo filme da noite, ‘Partir’, de Catherine Corsini, decorre sobre a vida de Suzanne, uma burguesa que vive no Sul da França. Casada, com dois filhos e uma vida estabilizada, ela decide voltar a trabalhar após 15 anos parada. Seu marido concorda e financia a construção de um consultório para que ela possa retomar as atividades de fisioterapeuta.
Logo, Suzanne conhece Ivan, um espanhol contratado por seu marido para agilizar a obra.
Porém, algo de estranho acontece, ela se apaixona por Ivan e decide largar tudo e viver essa paixão. Mas Samuel usa de sua influência para atrapalhar a vida dos dois. A narrativa de Corsini revela algo muito presente na atualidade, histórias cada vez mais comuns. O filme parece ser sobre uma história real, mas é tudo ficção. Com um discurso moralista, a trama avança e ganha dramaticidade.
A escolha por um personagem longe do estereótipo galanteador latino é um ponto positivo no filme, porém a previsilibidade da narrativa fica clara nas cenas finais.
Dos altos Alpes Suíços ao denso e sombrio mediterrâneo turco
No quarto dia da mostra, dois filmes com narrativas opostas. O suíço ‘Vitus’ dá mostra a vitalidade e audácia de um garoto. ‘Três macacos’ é forte e denso com quatro personagens centrais na trama. Um choque de narrativas numa mesma noite.

Vitus é nome de um garoto superdotado que vive em um universo paralelo. Exímio pianista, seus pais querem que se torne um grande músico, porém ele gosta de visitar a oficina seu excêntrico avô, onde os dois brincam e montam planadores. Ele só quer levar uma vida normal, até que um dia decide tomar suas próprias decisões.
Com uma narrativa clássica, o suíço ‘Vitus’ arranca lágrimas e risos dos espectadores. Uma história surreal e pouco realista, a superprodução do longa prova a grande influência do cinema americano em outras escolas. Com uma fotografia bem produzida e com soluções de áudio criativas, o filme de Fredi M. Murer ganha ainda mais força com a atuação de Teo Gheorghiu, que interpreta Vitus após seus 12 anos. Teo é prodígio no piano, e o diretor explora planos fechados em suas mãos para dar mais realidade ao filme.
Se você não conhece nada do cinema suíço, ‘Vitus’ é um bom começo, o longa é emocionante e alegre do começo ao fim.

Não enxergo, não falo e finjo que não escuto. Assim é ‘Três Macacos’, longa turco que se desenvolve sobre a história de quatro personagens. Um acidente de carro afeta a vida de todos. Para se manterem unidos, Eyüp, Hacer e Ismail, resolvem não discursar sobre os acontecimentos.
O silêncio e o sombrio mediterrâneo imperam sobre a estética do filme. Notavelmente, a fotografia leva um tom monocromático, deixando a trama ainda mais densa. Quase não há diálogos, o que dá espaço para silêncio, mistério e inquietação. Um sentimento de culpa a cada plano sequência fotografado pelo diretor. ‘Três macacos’ é denso e forte e, provavelmente, não tem a intenção de agradar a todos.
O longa extrapola a estética comum do cinema. É preciso muito esforço para acompanhar a narrativa. Em alguns momentos o silêncio e longos planos, onde não acontecem nada, perturbam o espectador acostumado com narrativas clássicas.
A programação do II Panorama Sesi – Mostra de Cinema Internacional se estende até amanhã. Para conferir o que ainda está por vir e os horários das sessões, acesse o site do espaço Cultural do Sesi, http://www.centroculturalsesi.com.br.
1 | Cinema internacional aporta em Maceió « SIRVA-SE – cinema
19 de May de 2010 to ● 1:54 PM
[...] http://sirvase.net/blog/?p=1076Trazendo às terras alagoanas 14 filmes de diversos países, desde a última sexta-feira, o II [...]