Sertão/Capital via esgoto

Postado por: SIRVA-SE ● 23/06/2010

Por Daniel Hogrefe

Filho bastardo de Palmeira dos índios, cidade do interior de Alagoas, Erivaldo se refugiou em Maceió com a desculpa de cursar contabilidade na UFAL. Desvirginado na cultura underground por um K7 dos Ramones, o jovem trocou cartas com gente de todo Brasil, conhecendo por intermédio do entregador dos Correios inúmeros fanzines, bandas e filmes. Morando na capital, Erivaldo encontrou um ambiente propício e fecundo para seu lixo, como ele mesmo chama carinhosamente o que produz. Atualmente está na décima quinta edição seu fanzine “Spermental”, o mais longevo da cidade. Despertando amor, ódio, tesão e nojo, ele conquistou um público fiel e interessado, além dos curiosos habituais.

O universo de Erivaldo, alimentado por sexo, sangue, perversão e um humor ácido traz a luz personagens pertubados, serial killers, necrófilos e toda espécie de seres humanos repugnantes que se escondem por trás de sorrisos simpáticos a cada esquina.

Suas histórias tomam forma também no cinema, ao lado da Scoria Trash Filmes, que apesar de não ter o mínimo reconhecimento dentro do circuito cinéfilo da cidade, teve seu curta “Psychodemia” exibido na Mostra Trash de Goiânia desse ano e prepara outros curtas para o 2º semestre.

Erivaldo ainda é esperto o suficiente para se aproveitar da onda de crack que toma a cidade e junto a outros roqueiros toca pra frente o projeto performático Anti-musical Power Of The Nóia, que já lançou dois CDs, um split e um DVD e já prepara um split com os catarinenses d´Os Legais.

Confira a entrevista aí embaixo e entenda um pouco mais sobre o que se passa nessa mente perturbada e movida a cachaça e grindcore.

Você é natural de Palmeira dos Índios. Como você foi se envolver com fanzines, rock e filmes trash morando nesse fim de mundo? Rola alguma coisa assim por lá, ou você era meio que a ovelha negra da cidade?

Então, como todo mal tem sua origem, surgi no meio da terra dos índios como um pirralho de poucos amigos. Acho que como quase todo desajustado por lá, quando tinha uns 12 anos, do nada, apareceu um K7 do Ramones em minhas mãos e assim começou a loucura. Fui me interessando por sons mais barulhentos, até conhecer o grindcore. Como por lá os materiais dessa linha quase não eram encontrados (e mp3 praticamente não existia), comecei a trocar cartas e pegar materiais com pessoal de fora. Nesse meio tempo, também fiquei obcecado por filmes de terror, e com a ajuda do Baiestorf e Gurcius, conheci muita coisa do cinema underground e os chamados filmes “trash”.

Com as cartas que recebia, sempre apareciam fanzines. Depois de devorar muitos, decidi que estava pronto para arriscar escrever algo e assim surgiram as primeiras publicações.

Era tudo meio que interligado, se eu comprasse um filme, recebia fanzines, demos e flyers de bandas. Daí, finalmente tinha tudo o que precisava em mãos…

Hoje você está morando aqui em Maceió, de certa forma isso te dá um gás a mais pra produzir? Qual a diferença de morar na capital e no interior?

Com certeza. Lembro que quando lancei a primeira edição do “Spermental”, entreguei cópias aqui e em Palmeira. Por lá, teve gente que rasgou o fanzine, cuspiu e amassou. Ninguém curtiu a ideia e alguns ficaram até com raiva (o que me serviu de grande incentivo para continuar), enquanto que em Maceió, o pessoal ficou afim do material e incentivavam de forma positiva a produção.

Morar em Maceió me deu os recursos e apoio necessários para a coisa prosseguir. O público aqui é bem mais refinado, dá um tom quase de “arte” a essa desgraça, são pessoas que procuram o material, apóiam, são meu suporte. Sou grato a todos que me ajudaram e ajudam a manter tudo. Em Palmeira, consegui convencer amigos a ler agora. Quem conhece de primeira, leva mais na diversão ou rasgam, cospem e amassam… haha!

Lembro que você tinha um zine chamado “O Novo Pagão”, que era anti-religião. No próprio Spermental tem muita coisa na qual a gente percebe meio que uma aversão sua pela Igreja, padres, Jesus… Qual é seu lance com a Igreja, porque tanto ódio?

No tempo de “O Novo Pagão”, eu vivia pensando bastante nessas coisas de religião. Acho que até os 15 anos, se eu não fosse à igreja todo domingo, eu seria massacrado em casa. Daí deve ter surgido esse clima de ateísmo fervoroso. Também curtia bastante black metal (o que curei com muitas doses de cachaça e Adelino Nascimento no coração). Sendo obrigado a ir à missa, com um monte de religioso dizendo que eu ia para o inferno e ouvindo música do capeta, assim surgiu o novo pagão.

No “Spermental”, existe muita zombaria com a religião realmente, mas considero algo mais saudável… O cristianismo como qualquer outra religião, entra como uma espécie de patologia social. Deus e Jesus entram como perversores da mente humana e os religiosos são caricaturas das pessoas que encontro nas ruas. Hoje em dia, não sinto ódio da religião, apenas a trato como parte do cenário criado pelo zine. Um dia, quem sabe, eu vire amigo de Papai do Céu…

Eu fico sempre abismado quando vejo como as pessoas se interessam pelo “Spermental”, vejo todo tipo de gente pegando e lendo, levando pra casa e tudo mais. Você acha que as pessoas se identificam com as coisas que você escreve?

Quando decidi montar o zine, queria fazer algo diferente da maioria das coisas que tinha lido. Decidi publicar alguns contos que estavam entocados, e me assustei quando deu certo. As pessoas amam filmes de horror e putaria, então o “Spermental” é a literatura aplicada a esses gêneros. Muita gente me fala que curte o zine porque possui uma temática fora do comum, algo que trata dos delírios que alguns dos próprios leitores têm. Outros lêem por curiosidade ou para se inteirar sobre os temas abordados. Em resumo, “Spermental” é o mingau dos tarados, psicopatas e curiosos pela desgraça alheia.

Você acha que as pessoas se sentem atraídas pelos seus personagens por eles fazerem coisas que elas tem vontade, mas não fazem por causa de regras morais e da sociedade?

Depende, acho que existem dois tipos de leitores: os fãs e os curiosos. Quem já gosta de materiais ligados ao mundo da escatologia, gosta do fanzine como parte da cultura, apreciam tudo com um olhar de “arte”. O assustador são os curiosos, porque geralmente são pessoas pervertidas que tem vontade de fazer o que escrevo. Já me apareceu figura que realmente queria matar pessoas e cometer atrocidades… haha. Esse tipo de gente usa o material para alimentar delírios e desejos. São cidadãos de bem com mentes infestadas de perturbações, o que remete direto aos personagens do zine.

Gente como aquelas meninas do “Two Girls and One Cup” e padres pedófilos tão ai pra provar que seus contos não são tão distantes assim da realidade?

Exatamente! Muita gente se engana ao pensar que o “Spermental”  é um fanzine de ficção. Os fatos estão aí para mostrar que a sociedade doente do meu trabalho é um mero espelho do que acontece no mundo real. Na última edição do zine, fiz um conto sobre dois necrófilos que foram molestar o cadáver de uma neta, mas pela placa trocada pegam o cadáver da avó, e na pressa, papam o cadáver da velhinha mesmo. Cara, isso foi verdade, rolou em um interior no Sudeste, ano passado. O Mundo anda muito bizarro e ainda há quem não enxergue isso.

Sempre vejo pessoas interessadas em colaborar com o zine, seja com desenhos, contos ou poesias. Já tiveram até algumas pessoas que colaboravam mais freqüentemente, depois pararam… Como funciona esse esquema de colaboração no “Spermental”? Entra o que você acha legal, o que você quer colocar, ou os colaboradores acabam deixando o zine com a cara deles também?

Geralmente, as pessoas que colaboram são amigos, ou fãs que se tornaram brothers. O Zine é aberto a quem quiser se manifestar com textos, ilustrações, quadrinhos, etc… Muitos colaboradores somem e aparecem do nada com materiais, como é o caso do Max Dantas (Snoopüs Cÿrcencis). As únicas pessoas que tem se mantido fixas com material sou eu e o Thiago Guimarães (capas). Mas está tudo aberto a quem quiser se juntar a nós em nossa jornada rumo ao fracasso. Ao contrário do que se pensa, o zine não possui uma temática definida, cada um faz o que quiser. Daí, coleto tudo o que me enviam, bebo bastante cachaça e seleciono tudo o que couber, junto com desenhos do Thiago e envio para a designer montar estrutura.

E sua mãe Erivaldo, já leu o “Spermental”? O que ela acha?

Ahhh, mamãe! Acho que se ela já tivesse lido o que escrevo, eu já estaria tomando meus banhos de sol no Portugal Ramalho (Hospital Psiquiátrico de Maceió). Ela nunca se interessou por nada desse meu lado. Quando fazia zines em Palmeira, ela parava e olhava só as capas “Que coisa horrível! Vá fazer algo que preste!” ou “Por que você não vende essas porcarias que faz? Se isso não dá dinheiro, você deveria parar de perder tempo…”. Mamãe só quer que eu faça um concurso público e pare de ligar desesperado pedindo grana.

Acho que essa pergunta da sua mãe é boa, porque você não vende essas porcarias que faz afinal?

Cobrar por lixo? Haha. Há algum tempo tenho pensado bastante nessa questão de cobrar pelo que faço. O zine é uma comunicação barata e artesanal, meus bolsos ainda agüentam uma parte da tiragem. Sempre peço fundos aos colaboradores para expandirmos o número de cópias e enviar material pelo correio. E assim, tudo tem sido mantido até hoje.

Também estou dando uma de Che e entrando no ramo das camisetas. As melhores capas estão virando estampas e que estão sendo vendidas a preço de custo. Estou desenvolvendo um material à parte, histórias com capítulos e tudo mais, vai ser um material mais profissional, em stencil e todo ilustrado e é aí, que o capitalismo vai entrar. Por enquanto não pretendo cobrar pelo “Spermental”, mas essas ramificações vão custar caro, então terei de lidar com custos. É o CAPETAlismo devorando tudo!

Fiquei sabendo que seus contos iam virar um livro agora, explica ai direito como é essa história!

Então, muita gente me cobrava as edições anteriores do zine. Só que nem eu tenho isso! Haha. O jeito foi reunir tudo no blog, mas não sou muito chegado no mundo virtual,e como o fanzine é impresso, nada substitui o papel. Entrei em contato com a editora Livros do Mal, mas eles já estavam de portas fechadas. Também surgiu um pessoal em Manaus, confirmando que iriam lançar, mas vivem enrolados. Agora descobri a editora libertária Achiamé, e o editor apreciou bastante o material… Ando aguardando uma resposta definitiva. Caso não role por eles, vou lançar como material independente mesmo. Até o fim do ano, ele vai estar pronto, só ando vendo quais serão os caminhos que seguirei para lançá-lo.

E a contabilidade, como entrou na sua vida? Dá pra perceber alguma relação entre números, sangue, zumbis e cogumelos?

Minha querida escravidão! Quando fiz vestibular, queria algo que ficasse rico trabalhando o mínimo possível. Com a contabilidade dá para ficar rico, mas descobri que vou me ferrar pra caramba até lá. Nem tudo é uma rodinha de poesias… Tenho até sorte, porque realmente me divirto com números. Trabalhar foi uma coisa até difícil para mim, não sabia lidar com as pessoas, mas ter contato diário com todo tipo de gente, fez com que eu me inteirasse mais sobre como funciona a sociedade. As atitudes e sentimentos de meus companheiros foram acrescentados aos contos do “Spermental”, meu chefe e parceiros de trabalho viraram objetos de estudo.  Passei a analisar muitas coisas novas e acreditem: a demência vai dos serial killers até o mais honesto dos trabalhadores!

Pois é, você tinha me falado que rola muita putaria no seu e-mail de trabalho, como é isso?

Quando comecei a trabalhar, descobri um segredo terrível: os e-mails são movidos a putaria! Haha. Cara, quando chego para trabalhar segunda, tem uns vinte e-mails pornográficos, todos enviados por companheiros de profissão. Loirinha, moreninha, peludinha e raspadinha, uma bagaceira só. Sem falar num montão de vírus. É a maior complicação para checar e-mails de cliente e amigos, no meio de tantas senhoritas peladas.

E com a Scoria Trash Filmes, como você foi se envolver? O que mais a gente pode esperar depois do sucesso dos últimos filmes?

Ainda em Palmeira, eu queria fazer filmes. Mas quando se fala em cinema, os impasses são muitos, e no interior então, putz…  Tentei filmar um curta chamado “Skizofreak”( que foi o roteiro inspirador do Psychodemia, mas quando tudo estava pronto, atores faltaram. Quando estava para me mudar, soube do Buzugo e a Scoria Filmes, e assim que cheguei, entrei em contato. Assim surgiu nossa parceria e filmamos o curta “O Retorno de Satanás”. E assim, se seguiram nossos outros dois curtas “Psychodemia” e “Rivotrue – O Filme”. Percebi que o problema com atores era algo generalizado, não adianta combinar, sempre tem um puto que dá pra trás. Então, hoje em dia, o esquema é deixar um roteiro pré elaborado e chamar quem quiser participar.

Ultimamente, passamos a colher frutos de tudo isso com a participação na “Mostra Trash de Goiânia” e no DVD do novo filme do Baiestorf, “Ninguém deve Morrer!”. Mês que vem, estamos para filmar dois curtas novos, e ando concluindo um curta chamado “Segurei na Mão de Deu$… e fomos para um Motel!” (para variar com essa de Religião). Quem se sentir interessado é só manter contato!

E hoje você é também um astro do rock com a Power Of The Nóia . Vi um show de vocês e achei muito foda, tem toda uma performance por trás e tal. É tudo pensado para tentar chocar as pessoas mesmo, ou sai na hora meio que sem querer?

As merdas são todas Naturais! Hahaha… Tinha participado de alguns projetos de grind/noise como a “Ultrapowerviolencia” e a “The Jesus Orquaestra”. Decidimos então montar um projeto antimusical que fugisse as expectativas do estilo, então entrou teclado no lugar da guitarra. Muitas pessoas se uniram a nós e hoje somos uma maravilhosa orquestra interativa, afinal quem quiser, é só pegar algo que considere instrumento musical e vir participar de nossos shows…

Temos como influencias clássicos da música nacional como: Zumbi do Mato, os Legais e o grande mestre Damião Experiença. E já que o NX Zero e o Fresno têm um visual radical, conversamos com nossos estilistas e criamos nossa estética baseada na tribo do deus Pedra: os Nóias. Estamos para entrar em estúdio para gravações de nosso novo CD, que será um split com os Legais, chamado “Coração de Pedra”. Isso aí, criançada: Sem Nóia, Sem Paz!

Pra fechar, o que você acha do avanço generalizada da nóia na cidade?
Sucesso pra banda, oras! O crack criou uma legitima nação de zumbis, criaturas que matam para saciar sua fome por pedras. Acho que já está mais que na hora da sociedade parar de tratar a nóia como vício, e sim, como epidemia. Caso contrário, a violência só vai piorar e a Power of The Nóia vai acabar na MTV.

Por fim, agradeço bastante a oportunidade de divulgar todos esses projetos, e realçar que todos estão abertos a participação de interessados. Fiquem com Jah!

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