Diferentes Olhares

Postado por: SIRVA-SE ● 01/12/2009

Por Vanessa Mota

Superbarroco - Crédito Marcelo Lyra

Redescobrir o Brasil a partir de 30 pontos de vista. Esse é o principal objetivo da III Mostra de Cinema Brasileiro do Cine Sesi. A iniciativa abre espaço para uma produção cinematográfica marginal, fugindo de fórmulas comerciais e com olhares diferenciados. São filmes que fogem ao lugar-comum da produção nacional nos últimos tempos.

Além de criar esse ambiente de descoberta, o Sesi, ainda investiu no intercambio. Trazendo diretores e responsáveis pela criação dos filmes exibidos para debates após as sessões. Iniciativas como esta, e a Mostra Sururu, são exemplos de que existe, sim, um cenário pequeno, mas crescente de interessados em fazer e discutir cinema em Alagoas.

A Sirva-se foi convidada pela Mostra para acompanhar as sessões e fazer parte desse redescobrimento do Brasil pelo cinema. Estamos conhecendo um país de sertanejos, cidadãos, loucos, tarados, pais, mães, músicos, matutos, modernos, atores, cantores, escritores, estrangeiros, excluídos e, agora, de cineastas.

A Mulher Biônica

A primeira sessão que acompanhei foi A Mulher Biônica, curta cearense vencedor do 1º Festival do Júri popular na cidade de São Paulo, em que é narrado um dia na vida de Marta. O curta é uma adaptação do conto Creme de Alface, de Caio Fernando Abreu e apresenta uma linguagem informal, principalmente no início. Depois, passa por um desencadear de fatos que exibem uma outra face da protagonista, não menos humana do que a anteriormente apresentada.

Em Blackout, que conta com a presença de Wagner Moura, e assim como sugere o nome, a história tem como um de seus personagens, um tema tão recorrente nas últimas semanas: apagão. E é nesta falta de luz que as coisas começam a se desenrolar e o que deveria ser um momento de descontração, transforma-se numa sequência de revelações caóticas. O curta, que é contado em cima de uma conversa entre um assessor parlamentar e um suplente parece se basear em fatos bem reais, mas faz questão de avisar que é baseado em fatos fictícios.

Blackout

SuperBarroco, vencedor do Festival de Curtas do Rio de Janeiro neste ano, se utiliza de projeções para aproximar realidade de alucinação. Dirigido por Renata Pinheiro, a produção pernambucana preenche uma casa vazia com imagens que são fruto da imaginação do protagonista, mas que, de tão bem encaixadas, fazem o espectador esquecer isso.

O primeiro longa que vi, Patativa do Assaré: ave poesia, de Rosemberg Cariry, conta a história do poeta popular cearense baseado em depoimentos do próprio, coletados de diversos outros documentários já produzidos sobre ele. Também há jornalistas, historiadores e até mesmo outros poetas. A estes cabe muito mais a função da análise; Patativa é o responsável por contar sua história.

Patativa , Dona Belinha e Rosemberg Cariry - Foto Jackson Bantim

O documentário apresenta a vida do poeta e contextualiza seu trabalho com os acontecimentos da época em que viveu, mostrando como sua arte se fez presente em momentos de grande importância para o país. Cariry torna evidente a ligação de Patativa com questões de todo Brasil e mostra que sua obra transpôs as barreiras territoriais do Ceará, chegando as grandes capitais.

O diretor parece cumprir seu papel de tornar conhecida a vida e obra do conterrâneo. Com mais de cem horas de material coletado, Rosemberg Cariry faz uma colagem que parece atender seu objetivo.

Em Siri-Ará, mais uma vez de Cariry, a montagem teatral encena a história da civilização brasileira. Utilizando-se de lendas e folguedos, o filme retrata os conflitos que fizeram parte de povoação do Brasil.

Siri-Ará

Utilizando-se de Cioran, um antropólogo que, após casar-se com uma francesa e viver um tempo na cidade natal de sua esposa, retorna às suas origens, com sede de entendê-las. Atravessa então o sertão, cruzando com mitos e histórias reais, assistindo a construção do estado do Ceará, que funciona como um retrato de toda a nação.Em alguns momentos, a narração em francês, que seria a leitura do diário de Cioran por sua mulher, torna-se meio deslocada e transforma a produção em algo didático.

Mas passemos para o domingo: Moscou, de Luiz Eduardo Coutinho. O documentário trata da montagem de uma peça de Tchekov, As Três Irmãs. O texto é um drama que retrata uma família que sonha em voltar para Moscou, cenário de suas idealizações.

Moscou - Crédito Bianca Aun

Um desafio de três semanas proposto para um grupo de teatro mineiro, mas a intenção não é registrar o produto final do trabalho – que sequer chegou a existir-, e sim o seu processo de construção.

Coutinho cria certa intimidade entre personagens e espectador, especialmente no início do filme, diante do posicionamento da câmera, talvez para suprimir a ausência do contato da montagem com o público.

Iluminados trabalha com metalinguagem. Dirigida por Cristina Leão, a produção reúne seis fotógrafos de cinema brasileiro – Dib Lutfi, Edgar Moura, Fernando Duarte, Mário Carneiro, Walter Carvalho e Pedro Farkas – que falam sobre seus trabalhos, experiências e montam, cada um a seu gosto, a mesma cena.

Iluminados

Enquanto vão relembrando, falam de cinema brasileiro, citam nomes, filmes, e sobre suas concepções da fotografia no cinema, exibindo pontos de vista quase que completamente divergentes.

Em Meu Mundo em Perigo, de José Eduardo Belmonte, os personagens deixam suas identidades de lado para fugir de seus problemas. A câmera acompanha o movimento caótico das memórias dos protagonistas e do desencadear de fatos, o que, confesso, me incomodou um pouco.

Meu mundo em Perigo

Ao final do filme, Belmonte retornou à sala e conversou sobre seus filmes com os presentes. Já eram mais de 23h, quando saí do Cine Sesi. Amanhã estarei de volta para o Curta às 3…

A Sirva-se agradece a assessoria de comunicação e ao Cine Sesi.

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1 Comment to "Diferentes Olhares"

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1 de December de 2009 to ● 2:37 PM

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