Postado por: SIRVA-SE ● 04/12/2009
Por Victor de Almeida
Na segunda-feira a grande pedida da III Mostra de Cinema Brasileiro foi a exibição de seis curtas-metragens de Camilo Cavalcante. Dentro da programação estavam incluídos: Rapsódia para Um Homem Comum, A História da Eternidade, Ave Maria ou Mãe dos Oprimidos, Ave Maria ou Mãe dos Sertanejos, O Velho, O Mar e O Lago e Leviatã.
O pernambucano produz desde 1995 e acompanhando os curtas de sua autoria – Camilo geralmente aparece como roteirista e diretor de seus trabalhos – percebi uma nítida evolução. De qualidade e de orçamento.
A obra de Camilo poderia ser definida como um cinema onde prevalece a máxima “tudo-ao-mesmo-tempo-agora”. São filmes criados em camadas com histórias secundárias, terciárias e assim vai, mesmo assim ainda são bastante intimistas.
O cineasta se distribui em personagens, histórias e ambientes para apresentar homens e mulheres únicos e comuns ao mesmo tempo. É certo que o Nordeste e sua terra natal são temas recorrentes, mas o que chama a atenção é a forma como o nordestino é retratado.
“O nordeste”, disse ele durante o debate após as exibições, “é muito mais que seca, gente pobre e sofrimento. Tem isso tudo também, mas o que me interessa é ver a região além dos lugares-comuns e das visões estereotipadas”.
Quem assistiu a exibição de Leviatã conferiu as angústias de um nordestino recém-chegado à São Paulo. Tudo retratado na maneira que a cidade pede. Velocidade, caos, correria e atropelo. Tudo está lá. São sentimentos de quem larga o amor e a vida simples em Pernambuco e parte para a maior metrópole do Brasil e não está preparado para isso.
O Velho, o Mar e o Lago narra a história de um ex-militar, que mora em uma “ilha” acompanhado de suas flores e um antigo farol. É quase todo um monólogo do senhor com as suas dores, retratado num lugar remoto. Poderia ser um roteiro de um sonho ou um pesadelo sobre solidão e loucura.
Os dois curtas Ave Maria são um caso a parte. Partes de uma trilogia ainda inacabada, mostram o mundo durante a hora do Angelus (18h). O primeiro Mãe dos oprimidos, retrata a realidade marginal e excluída de Recife. Pessoas que bebem, transam, assistem televisão, andam, dirigem, pedem esmolas, todos ocupados de alguma maneira durante a hora dedicada, na religião católica, à oração. Existe aí, de acordo com o próprio diretor, uma mescla de imagens documentais e de imagens ficcionais. Tudo acaba gerando um efeito muito interessante.
O mais recente Mãe dos Sertanejos foi premiado este ano no Festival de Brasília e tem uma curiosidade contada pelo próprio Camilo.
“A história foi criada junto com os sertanejos. Estivemos na região realizando oficinas com as pessoas do local que sugeriram cenas, locações e ações. É uma coisa diferente, é como se o próprio sertão retratasse o sertão num movimento de dentro para fora. Sem preconceitos ou visões distorcidas”, contou.
Rapsódia para um homem comum segue a linha onírica de Leviatã. Epaminondas é um funcionário público de classe média baixa nos anos 70. Sua vida é marcada por uma rotina incessante e sua relação com o carimbo e a repetição um dia se encerra quando decidi jogar tudo pro alto e tomar uma atitude brusca. A música e a imaginação aparecem e marcam a história de maneira forte.
A primeira sensação que quase todo mundo teve após assistir História da eternidade é: “Como é que esse cara fez isso?”. O filme parece ter sido gravado em apenas um take. Mas Camilo avisa. “É um falso plano sequência”. O curta se debruça sobre os instintos humanos mais cruéis. Cenas e seres bizarros pontuam determinados momentos de forma alegórica. Tudo ali tem significado.
Uma pena que não haviam muitos presentes na sessão, muitos deles podem ouvir falar em breve de Camilo Cavalcante, colocar a mão na cabeça e se arrepender por não ter ido conhecer o trabalho dele de perto antes. Para quem se interessar os curtas estão disponíveis para stream no site Porta Curtas. Assistam e tirem suas próprias conclusões.
1 | Suzana Gonçalves
6 de December de 2009 to ● 2:50 PM
Finalmente cheguei aqui!
Não poderia deixar de comentar sobre Camilo. Sinto-me extremamente tocada pelas obras desse cineasta, principalmente porque ele retrata cenas de um nordeste, sobretudo de Pernambuco, que me faz recordar a vida dos meus avós, naturais do interior pernambucano, de maneira nua e crua, mas não menos bonita.
A propósito, parabéns à equipe! Muito bacana a proposta!
Abs,
5 de September de 2012 to ● 10:57 AM
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