Postado por: SIRVA-SE ● 09/09/2011
*Esse título é de um poema de Manoel de Barros
Entrevista e Fotos por Bruno Jaborandy
Ilustrações por Pedro Lucena
Uma casa de muro azul no bairro de Ponta Grossa, em Maceió, abriga um artista que tem lá seus 30 e poucos anos de idade. Nos fundos dessa casa em um espaço que parece ter sido construído para isso, funciona o QG de onde saem os desenhos tão característicos desse artista. É seu ateliê e, segundo ele, o espaço menos quente da casa.
Dez anos marcam o tempo em que ele começou a despertar para a possibilidade de transformar seus desenhos em oportunidades. Sua obra alcançou lugares que ele não imaginava alcançar. O “complexo de pequenez” foi superado e a meta agora é ganhar o mundo. Começando pelo Velho Continente e depois, quem sabe, sair um pouco mais da sua cidade natal.
É preciso estar no eixo dos acontecimentos. Ele já perdeu o controle do alcance que sua obra tomou. Teve gente que já marcou no corpo os traços que ele marcou no papel, teve muita gente boa que citou o seu trabalho.

André Dahmer chamou-o de “O Monstrinho da Ilustração”. Laerte conheceu seu traço e curtiu as texturas, chegando a elogiá-lo via Flickr. Aqui na cidade quem não sabe quem ele é está vacilando. Cartazes de shows, capas de disco, matérias de revista, todas elas já receberam os desenhos de Pedro Lucena.
O desafio agora é de artista gente grande. A partir do dia 05 de novembro Pedro vai abrir no Espaço Anémona, na cidade do Porto, em Portugal, a exposição “Ciscos”. As obras dessa exposição se inspiram na obra poética do artista nascido em Cuiabá(MT) Manoel de Barros e no trabalho dos artesãos da Ilha do Ferro, localizada no município de Pão de Açucar, em Alagoas.

As figuras corcundas, retorcidas, feitas de maneira a seguir o fluxo da natureza inspiraram o artista alagoano a mixar esse trabalho com os temas da poesia de Manoel de Barros, que também tem a natureza como excelência em sua obra.
Pedro me recebeu em uma tarde de segunda-feira para conversarmos. Sempre sorridente ele foi logo me avisando que estava tomando remédios para uma tosse que está custando a deixá-lo e que podiam afetar sua atenção. Felizmente o anti-histamínico não afetou em nada as belas respostas que Pedro elaborou. O lance é que o cara gosta de falar e é sempre bom conversar com quem é assim. Seja em uma mesa de bar no Botequim Paulista, que foi onde o conheci e onde trocamos as primeiras ideias, seja em casa, ele é sempre um bom papo.

Da Amazônia a Portugal, passando por Maceió, conversamos sobre morar na cidade, o começo da carreira e como é necessário ter coragem para fazer as coisas acontecerem por aqui. Mexer com arte já é complicado, que dirá viver disso.
Com vocês algumas das ideias de um cara que consegue viver de arte em Maceió:

O PONTAPÉ INICIAL DO ARTISTA
Como foi que o desenho deixou de ser hobbie para começar a ser uma atividade profissional?
Eu terminei a Universidade, fiz Direito na UFAL, e eu tinha alguns amigos que trabalhavam com teatro que queriam porque queriam que eu trabalhasse com eles desenhando a identidade visual das peças. Aí fiz um trabalho com a Associação Teatral Joana Gajuru, um trabalho de cartaz, para o espetáculo Baldroca, inspirado no conto Corpo Fechado, do livro Sagarana, o que me fez começar a me apaixonar pela obra do Guimarães Rosa. Eu comecei a fazer por insistência dos amigos porque eu não queria fazer nada.

Nessa época você não acreditava na força do seu desenho?
É, eu não sentia que era bom, que tinha personalidade, sentia que era uma merda. Era um complexo de pequenez, como diria um amigo meu. Durante a graduação eu desenhava e guardava na minha gaveta, não mostrava para ninguém.
O lance todo começou depois que eu voltei da Amazônia, em 2006. Fui trabalhar em um lugar que se chama Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (http://www.mamiraua.org.br/). Eu levei papel e caneta, porque eu gostava muito de desenhar e achava que ia ter mais horas vagas. Aí cheguei lá e fiquei louco com o lugar, com a natureza. Não era uma cidade linda, vá lá, era como Maceió (risos), mas os arredores eram incríveis.
Eu me maravilhava com tudo, ficava em frente ao lago Tefé, vendo os botos, a visão das garças é linda, o verde contrastando com o branco dos bandos de garças. Quando eu estava lá eu fiz um desenho, que era uma idéia que eu tinha da mata de várzea. Eu coloquei no meu quarto, que era basicamente um colchão no chão e uma geladeira que servia de armário. Os tapetes indígenas que eu comprei e os meus desenhos na parede decoravam o quarto.

Um cara que morava na reserva também, chamado Paulo, e era coordenador de preservação dos quelônios (tartarugas, tracajá) ficou encantado com o desenho e me perguntou onde eu o tinha comprado. Ele perguntou então se não rolava de fazer uma cartilha para ele. Como eu estava trabalhando com uma ex-aluna minha, que tinha se transformado em amiga, eu falei que ficava complicado. Essa amiga ficou louca com a cidade e foi embora, e perguntou se eu queria voltar. Eu falei então com o Paulo e ele disse que podia me pagar pelo trabalho, foi aí que comecei a fazer a cartilha.
Não tenho um desenho dessa época, infelizmente. Aí quando eu voltei, eu pensei: cara, eu preciso começar a desenhar e mostrar para o povo. Porque se um cara, na casa do caralho, gostou do meu desenho, investiu, pagou, eu podia conseguir mais trabalhos, eu pensei. Aí eu abri o Fotolog. Aí o primeiro trabalho que apareceu foi o Balanço Qualitativo e Quantitativo das Empresas de Comunicação, do Telecom, em 2006.

E como era sua rotina nessa época?
Eu dava aulas de dia e desenhava a noite. Tinha dupla personalidade. Eu dizia que era artista visual e de dia eu era professor. Eu trabalhava mais a noite e nos fins de semana.
Você pensa em dar aulas de artes visuais um dia?
Cara, eu não sei, porque tudo que eu faço é muito intuitivo. Tem técnicas que eu gostaria muito de trabalhar bem com elas, como aquarela, por exemplo, eu adoraria trabalhar com aquarela, queria muito fazer xilogravura também.

Você abandonou seu emprego formal e hoje trabalha apenas como ilustrador. Como foi esse processo?
Isso. Só estou desenhando. Deixei, e aí vamos ver no que vai dar. Cara, foi mais fácil do que eu imaginava. Foi difícil para a empresa em que eu trabalhava. Eu era coordenador e tinha seis anos de empresa, sabia como tudo funcionava, sabia lidar com todo o tipo de aluno que chegasse. No começo é difícil lidar com estrangeiros, até porque é outra mentalidade, é outra forma de falar, eu sempre atendia as ligações internacionais. Mas eu tenho que me arriscar, arriscar isso, ano que vem dar uma saída da cidade, dar uma zarpada.
É importante estar lá, estar no Sudeste, São Paulo, se possível. Quer queira ou quer não o eixo existe. Esse eixo Rio-São Paulo é foda, eu perco muita coisa porque não estou lá. Meu trabalho não tem uma visibilidade que deveria ter. Eu preciso estar lá, pelo menos por um tempo.

Hoje você já consegue tirar uma grana para se manter?
Sim, já rola. Agora não muito porque eu estou fechado nesse projeto e estou dispensando algumas coisas que estão aparecendo. Espero que essa exposição na Europa abra muito espaço. O circuito de artes de Porto é muito movimentado. Eu quero trabalhar também em grandes eventos, mas eu preciso explorar mais outros pontos do meu trabalho.
Quais as principais referências do seu trabalho?
As minhas primeiras referências caem em dois pontos muito diferentes. Primeiro é o Walt Disney, que quando eu era criança via muitos os filmes e lia os quadrinhos. Tinha um livro em casa que era uma edição Malba Tahan de ‘A Divina Comédia’ que me fascinava pelas ilustrações, feitas por um ilustrador francês chamado Gustave Doré. Ele trabalha com uma luz com bico de pena que é impressionante. Durante muito tempo esse livro me fascinou porque aquelas imagens do Inferno eram assustadoras.
Depois vieram os grandes mestres, eu adorava ver El Greco, Van Gogh, Vermeer. Outro cara que tem uma pincelada mais longa que é o Klimt, que eu adoro. Uma coisa que eu gostava quando era mais pivetão era Velasquéz, quando via os livros de arte do meu pai.
E atualmente no Brasil, quem te inspira?
Velho, tem uma galera fazendo umas coisas muito foda no Brasil. Eu gosto muito de “os gêmeos”, claro, mas gosto muito também do trabalho do Stephan Doitschinoff, que é um cara que trabalha muito com a dualidade pagão x sacro. Gosto muito também do Renato Alarcão, que trabalha com ilustração para livros infanto-juvenis e, como tem muita técnica, ele consegue transitar por várias facetas, ele trabalha com clássicos, capa de livros, ministra oficinas, etc. Angeli é muito bom. Ionit Zilberman que é uma autora e ilustradora israelense radicada no Brasil, ilustrou o livro de Ilan Breman, ‘As 14 Pérolas da Índia’. O livro é lindo, feito com lápis de cor. São pessoas super acessíveis, dá para trocar ideias.
De fora do país eu gosto dos franceses Rebecca Dautremare e Benjamim Lacombe, que são fantásticos.

Além dos trabalhos para a exposição, no que você está trabalhando atualmente?
Eu estou fazendo um trabalho agora que é muito legal e estou com o maior tesão de que ele fique pronto logo. A Panda Books está com um projeto que se chama Clássicos Panda, e eu fiz a ilustração dos dois primeiros livros que são Iracema, de José de Alencar e Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida. A gente está trabalhando com um estúdio de design de São Paulo que chama Casa Rex (http://www.casarex.com/site/en/). Os caras tem filial em Londres e tudo, muito foda o trabalho deles.
Aí sim vai ser um puta trabalho, porque é um trabalho voltado para adolescentes, tem muito a ver com meu traço, não tem cor, é mais linha mesmo, e pela questão da visibilidade mesmo que meu trabalho vai receber, e ainda tem Dom Casmurro, de Machado de Assis e O Cortiço, de Aluísio Azevedo, mas eu tô doido que o trabalho termine, para eu colocar no meu portfólio.

CISCOS: MANOEL DE BARROS, ILHA DO FERRO E O QUE SURGE DESSA COMBINAÇÃO
Como foi o processo para você expor no Espaço Anémona, na cidade do Porto ?
Foi através de um convite da Manaíra Ayres, que foi estudante de jornalismo da UFAL e hoje mora em Portugal. Ela está trabalhando como diretora da galeria e convidou a também artista plástica Marta Emília e perguntou se ela não tinha um outro nome para expor também.
A Martinha falou de mim e a Manaíra lembrou do meu trabalho e mostrou para o dono da galeria, que gostou. Assim rolou o convite e eu tinha que definir em quatro dias o nome da exposição.
Foi muito bacana porque eu consegui amarrar tudo muito bem. Aí quando eu amarrei Ilha do Ferro com Manoel de Barros as coisas fluíram, tanto que tá rolando um desdobramento muito legal do trabalho, tem umas coisas acontecendo que são muito bacanas, tanto na questão teórica como na leitura que as pessoas estão fazendo do trabalho. Por exemplo: eu tenho uns amigos que estão pensando em transformar os personagens em peça de teatro.
Tem também a proposta de elaborar um livro contando a história da exposição. Mas isso são projetos que estão no campo das ideias. De concreto só a exposição mesmo.
Como acontece esse lance entre a imagem que a poesia te proporciona e a imagem visual, como é feita essa tradução ?
Eu acho que é muito complicado e muito delicado você traduzir imagem da poesia. É difícil porque você acaba caindo numa coisa ruim, ficar traduzindo o texto poético em imagem. O que acontece é que eu me utilizo da obra de Manoel de Barros pra dar o embasamento poético para as corcundas e as figuras da Ilha do Ferro. Unir os dois foi uma sugestão da Carol Gusmão (artista plástica e professora universitária alagoana). Depois, lendo Manoel de Barros, vendo a Ilha do Ferro eu percebi que eles pretendiam fazer a mesma coisa, só que em diferentes campos das artes.
A Ilha do Ferro trabalha a humanização da natureza por meio da escultura e o Manoel, através da poesia. Eu venho fazendo assim: eu crio as obras e depois eu vou buscar o texto. São sempre essas figuras que estão em comunhão com a natureza, né? São essas figuras estranhas que tem o apreço pelas coisas naturais, e tem um lance muito recorrente que é o lance do Manoel: o chão, que é ensinamento, segundo o autor, o que parece ser mas na verdade não é, dentro da natureza, que é o que faz o artesão da ilha, né? Um galho que parece uma cobra, o artista da Ilha do Ferro acaba transformando em cobra. Um galho que parece uma cadeira, ele acaba transformando em cadeira. E o Manoel gosta de fazer isso na poesia.
Eu tento me afastar da imagem, claro que existe uma relação pequena da imagem com o texto, mas quanto menor essa relação, melhor. A imagem que eu crio complementa a poesia do Manoel, que vou utilizar para servir de títulos para as obras.

Como foi a convivência com os artesãos das Ilha do Ferro ?
Eu me hospedei na casa da filha do Seu Fernando (um dos principais artesãos dessa comunidade, já falecido), que na verdade era a casa dele. Foi muito bacana. O espírito da coisa é que os caras têm amor à arte. Ganhar dinheiro é conseqüência.
O mestre Aberaldo fala que só vende as suas coisas porque é preciso, pois se ele pudesse, ele guardaria tudo o que ele faz. Eu, apesar de não ter muito apego com as coisas que crio tem algumas que eu queria ficar. Todas essas figuras que estão nesse trabalho são inspiradas em figuras criadas pelo mestre Aberaldo.
Quanto tempo você demora para fazer as obras que farão parte da exposição?
Bem, os painéis variam. Acho que em torno de duas semanas, mais ou menos. Teve um painel em que eu quis chorar várias vezes durante a confecção dele, por conta de todos os detalhes que foram surgindo. Chorar de angústia, porque parecia que ele nunca mais ia terminar.
Os tamanhos das obras que eu vou levar são 1,60m por 0,70m, 0,90m por 0,70m e 0,5m por 0,70m. Eu acho que não precisa de muito mais coisa não. Porque agora eu só tenho um mês, um mês para terminar e um mês para emoldurar.
E quais são os materiais que você usa no seu trabalho?
Nanquim. Geralmente eu uso nanquim e aquarela e uma caneta fantástica que eu descobri que eu uso para fazer detalhes brancos em estruturas pretas.
Quais sãos os planos para depois da exposição?
Pretendo fazer um tour pela Europa. Quero conhecer o Museu Du Louvre, o Museu Guggenheim, dar uma garimpada por lá, por pelo menos por um mês e meio, mas dependo dos apoios que vou receber. Já recebi um apoio, que é o da Casa da Indústria, que vai entrar com as molduras. O Espaço Anémona vai cobrir o meu transporte e o envio das minhas obras para o Porto. Tenho muitos ex-alunos e amigos pela Europa e pretendo me hospedar nas casas deles.
VIVER EM MACEIÓ E SUAS PARTICULARIDADES
Como é esse lance de morar em Maceió, mesmo com o alcance que sua obra tem?
Morar em Maceió é incrível, cara. Eu estava pensando sobre isso ontem. Primeiro que Maceió é linda. Linda com relação às belezas naturais porque a cidade está um lixo. O acervo, o patrimônio da cidade está terrível. Existem projetos. Você vê projetos em Marechal Deodoro e aqui também, mas você não vê isso concretamente. Aqui tem muitos problemas urbanos, o centro da cidade está um nojo.
Por outro lado é muito legal morar em Maceió porque você tem tudo muito perto. Eu tenho meus amigos por aqui, amo muito o sol, adoro a paisagem, o mar, maré baixa, a lua, as estrelas, todas essas coisas naturais me inspiram muito.
Por outro lado você tem a falta de exposições, a falta de escolas especializadas em arte. Eu preciso muito me reciclar, estou precisando muito fazer cursos e não tem nada, agora que a Escola de Belas Artes resolveu abrir, mas com muito poucos cursos dentro das artes visuais, acredito que apenas dois, mas é só isso. O curso de Design começou agora na UFAL, já tem em uma faculdade particular, mas e as artes visuais, cara?

Ilustrações para matéria "Na calada do cérebro" da revista "Saúde é Vital" - Edição: Fev.2009 - Editora Abril
Maceió tem alguma visibilidade no mapa das artes visuais?
Não. Você vê prêmios de Incentivo, como o Itaú Rumos, que é muito importante, um evento em que a galera está investindo bastante, que tem muita gente que tá vendo. Tudo bem que é um pouco limitador, mas Maceió não tem representante nesse prêmio, ninguém daqui.
A participação do Nordeste já é pequena, apenas alguns artistas da Bahia, não sei se alguns de Sergipe. Tudo bem que o mapeamento do Itaú é de 2000 para cá. Para a galera que tá fazendo a coisa rolar agora tá difícil. Esse é o fato.
Se Alagoas tivesse uma outra visão para as artes seria bom, mas a galera acha aqui que arte é só chapéu de couro.

Revista "A5 Magazine" n.º 7 Childhood - Israel
Como você faz para se manter por dentro da sua área de atuação?
Eu me valho da internet. Procuro buscar referências e informações na internet, que é o meu canal hoje. E falando em internet, lembrei de uma coisa, que é o alcance disso eu já perdi, a proporção que meu trabalho tomou. Eu sempre faço buscas pela internet para ver quem me citou. E teve uma menina que me citou e fez uma tatuagem na perna de um desenho meu e eu achei incrível! Comentei e ela respondeu dizendo que tinha sido uma honra, eu fiquei feliz demais de ver a tatuagem grandona na batata da perna dela, um desenho que eu adoro por sinal. Eu costumo dizer que é pro bem e pro mal, porque pode ter alguém que esteja usando meus desenhos para ganhar dinheiro também, sei lá, mas se eu descobrir, eu processo! (risos).

E aqui em Maceió, quem é que você acha que manda bem na ilustração?
Tem os meninos que desenham: o Herbie, a galera do estúdio Alba, eu gosto muito do Lucas Barros, da AP 401. Gosto muito do trabalho da Marta Emília. O Daniel Melro e o Daniel Hogrefe, que tem um trabalho bem interessante. O Hogrefe agora está distante, né? Tá bebendo em outras fontes, isso é bacana.
Eu acho que precisaria haver uma maior integração dessas pessoas, algum movimento, sei lá. Agora eu fico falando isso mas também sou meio filho da mãe, não sou muito integrado, sou mais integrado na Internet, mesmo. Ah, tem também o trabalho do meu amigo Suel, que não é bem na ilustração, mas que curto muito, fora o carinho especial que eu tenho por ele.

Desenho para capa e CD da Revista Dis1 do selo de música independente Dissenso - Brasil
BAGAGEM CULTURAL: OUTRAS REFERÊNCIAS
Falando de música agora. O que você ouve quando está trabalhando?
Cara, eu tô muito fissurado em duas coisas agora: a música etíope do Mulatu Astatke, uma banda de Los Angeles chamada Dengue Fever, banda que tem uma história muito doida, são de LA, mas fazem música inspirada no som criado no Comboja nos anos 60 e 70, um pop bem feito, com bons arranjos.
Também tenho uma loucura por afro-beat, a última coisa que eu descobri foi uma banda chamada The Soul Jazz Orchestra, do Canadá. Escutei muito também Chris Braun, o trabalho novo dela tá muito bom, e do qual eu fiz a capa e desenhos para o encarte, o álbum se chama ‘Fábula’, título que tem muito a ver com meu trabalho, essa coisa de desconstruir as fábulas.
E as músicas que remetem a etapas da tua carreira?
Quando eu expus na Galeria do SESC eu estava ouvindo muito Arnaldo Antunes, eu passei muito tempo fissurado no cara. A trilha da exposição era Arnaldo Antunes. Eu curto muito também Portishead, sabia todas as letras em uma época. Morcheeba também. Beck eu escutei para caramba. Mutantes. Caetano Veloso.
Teve uma época em que eu era muito fissurado nos primeiros discos da Gal Costa. Infância foi Chico Buarque, Maria Bethânia, além dos discos do meu pai, do Noite Ilustrada, Altemar Dutra, Nelson Gonçalves. Eu, meu irmão e minha irmã éramos muito fãs de Nirvana também.
Qual o primeiro livro que você lembra de ter lido, que te marcou?
Cara, o primeiro livro que eu li se chama ‘O Pescador e Sua Esposa’, que é um conto dos Irmãos Grimm. Minha mãe nem lembra, mas ela me trouxe de presente. Tem uma coisa muito forte no meu trabalho, ele tem uma base literária muito forte, eu gosto de ter isso, acho muito importante.
Como eu trabalho muito com narrativo, a estrutura é bem narrativa, eu sou muito influenciado pelo que eu leio. Gosto muito mesmo do Gabriel Garcia Marquez, eu li muitos livros dele, pouquíssimos eu não li. Gosto muito do Julio Cortázar, do Rubem Fonseca, sou fã do Rubem, mais dos contos do que dos romances. Também gosto do Machado de Assis. Agora mesmo eu li um russo, chamado ‘O Mestre e Margarida’, de Mikhail Bulgakov, um livro muito importante na Rússia. E estou lendo ‘O Livro das Mil e Uma Noites’, em que as histórias são fantásticas nos dois sentidos, de qualidade e de fantasia mesmo.
Todos esses livros vão se acumulando e é muito bom, como artista, poder citá-los no meu trabalho, claro que com um toque pessoal. Também sou muito fã da Rachel de Queiroz e do próprio Guimarães Rosa.
E no cinema, o que você curte ver?
Eu já fui bem mais cinéfilo, hoje eu vejo menos filmes. Eu acho que o filme não deve tratar você como idiota, acho que essa é a primeira premissa. Tem que tratar você como uma pessoa que pensa. Por mais idiota que o filme pareça ser, por mais banal que seja a história, sempre tem como você refinar aquilo para que fique mais legal, mais bonito.
Uma comédia como “Um Peixe Chamado Wanda’, nele certas situações podem parecer idiotas mas, feitas por aquela trupe, é outra coisa, porque envolve também o trabalho de ator. Eu gosto muito do Wong Kar Wai, o trabalho dele é de tirar o fôlego, eu fiquei impressionado.
Outro dia eu vi um filme dele que é o ‘2046’. Uma coisa interessante é que ele consegue filmar a passagem do tempo sem ficar monótono. Ele tem uma coisa muito forte com a trilha sonora.
Curto muito Almodóvar, Luís Bunuel, Bigas Luna, gosto do Lars Von Trier. Um filme que eu vi e que eu penso até em fazer um trabalho com ele é o “A vida dos outros”, toda vez que eu vejo aquele filme eu sinto algo novo.
Tem uma galera nova americana que está fazendo comédia que tem uma coisa escrachada, meio clichê também, mas tem um tempero muito bacana. Esse pessoal do Jason Seagal, Seth Rogen. Quem está por trás disso tudo é aquele Paul Rudd, que fez aquele ‘Eu te amo Cara’. Acho que a química deles serem amigos garante que o clima dos filmes fique muito bom.
PLANOS PARA O FUTURO E OUTROS PAPOS
Onde você quer estar daqui a 5 anos?
Eu quero estar fazendo muita coisa. Muito mais do que eu estou fazendo hoje. Eu queria começar a girar uma grana maior. Tudo depende de com quem você trabalha e o que você faz, dentro dessa área. Se eu pegasse uma certa quantidade de trabalhos por ano em um bom padrão e outros menores seria incrível. Podia morar em um lugar bacana, possivelmente em São Paulo. Primeiro eu preciso chegar lá, para fazer as histórias acontecerem.
Mas chegando lá com o que você já tem feito não ajuda?
Ajuda sim. O termômetro que eu tive da última vez em que estive lá foi muito bom. Eu mostrava meu trabalho e a galera achava muito massa, muito bacana e ta

Qual o conselho que você daria para alguém que está começando?
Cara, isso é difícil. Mas meu conselho é você começar a mostrar seu trabalho para ver se a galera curte. O primeiro ponto é você tentar criar um portfólio bacana e firmar a sua identidade. Ser reconhecido pelo seu traço. Depois é você passar a publicar. Existem muitas vertentes. Sei lá, se você de repente gosta de trabalhar com intervenção urbana, com propaganda. Tem também galerias, publicações. Cenografia é uma coisa bacana também.
Existem vários circuitos, você só tem que achar o seu. Não precisar de ninguém é um bom ponto. Quando publicam seu trabalho só porque você é amigo de fulano é chato, isso não me interessa. Antes de exibir no SESC eu mandei meu trabalho para uma revista australiana chamada Pages Online, mandei na sexta-feira e na segunda já me mandaram dizendo que queriam publicar, mas tive medo de enviar, pois achava que eles não iriam gostar.

Quem quer se firmar nessa área não pode ter medo disso, de jogar seu trabalho às feras. É preciso também se informar sobre as revistas que trabalham com colaboradores e sobre os editais de formação, que te dão a oportunidade de sair do país e tudo mais, residências artísticas. Tem uma residência em São Paulo que chama Casa Tomada (www.casatomada.com.br). Quem me mostrou foi o René Guerra meu amigo. É um projeto em que você passa 3 meses em um lugar discutindo com uma galera. Isso é massa. Te dá todo um aparato e base teórica que você achava que nem existia no seu trabalho. Te ajuda a ver sua arte de uma forma diferente. E isso é muito enriquecedor.

+ Pedro Lucena AQUI
1 | Mário Lamenha
9 de September de 2011 to ● 7:56 PM
Excelente entrevista! Muito importante para resgatar esses talentos que temos aqui em Alagoas.
2 | caíque
9 de September de 2011 to ● 9:19 PM
Ducaralho Pedro! Entrevista inspiradora pra todos que são produtores de arte e cultura, inpendente da linguagem, aqui em Maceió!
3 | Abobora
9 de September de 2011 to ● 10:35 PM
Pedro, você é inspiradora. Tantas vezes eu vi talento desperdiçado sobre aqueles que não apreciam o seu dom, mas não você. Eu vejo em cada peça que voce gosta do que está fazendo.
4 | Janayna Ávila
10 de September de 2011 to ● 8:22 AM
Pedro, que matéria bacana! Bruno, parabéns! Legal como vc deixou a entrevista fluir, deixou que o entrevistado (cheio de coisas boas para contar) falasse. Isso é essencial numa entrevista e cada vez mais raro de se ver. Pedro monstrinho! Vou te visitar. Lêdo está encantado e Marina supercuriosa. Eu também! Beijos
5 | Cláudia Ponticelli
10 de September de 2011 to ● 10:06 AM
Pedro, parabéns pela tua arte!!! Tu é foda!!! E parabéns tb pela entrevista que está muito ‘gostosa’ de ler. Beijos e muito sucesso!!!!!
6 | carol vasconcelos
10 de September de 2011 to ● 12:38 PM
Parabéns! Muito legal a entrevista. Adoro o traço, as referências da natureza, o link com outros mundos… beijos
7 | Carol Almeida
11 de September de 2011 to ● 1:12 AM
Brunão, parabéns pela entrevista! E Pedro, parabéns pelo teu trabalho maravilhoso. Sucesso pelo mundo!
8 | Daniel Hogrefe
11 de September de 2011 to ● 2:25 AM
A sirva-se tava devendo faz tempo essa entrevista com o Pedro, mas veio na hora certo, muito boa! Do caralho ver que um cara de Maceió ta conseguindo se manter como ilustrador e ter todo esse reconhecimento, prova de que ficar sentado só reclamando que maceió é uma merda não leva a lugar nenhum, tem que seguir o exemplo do Pedro e dar a cara a tapa pra ver no que da mesmo =]
9 | Pedro Lucena
11 de September de 2011 to ● 11:28 AM
Oi, gente!
Muito obrigado pelo carinho de todos.
Costumo dizer que eu deposito muito amor em minhas criações, e esse amor que volta para mim através de todas essas manifestações de apreço que recebo de todos vocês.
Um grande abraço,
Pedro.
10 | Links Alagoanos #25 | Blog do Marques
13 de September de 2011 to ● 1:25 AM
[...] Livre para o silêncio das formas e das cores. [...]
11 | Suzana Gonaçlves
13 de September de 2011 to ● 12:36 PM
Parabéns pelo material, Bruno!! Já era hora de haver uma entrevista com Pedro, de quem sou muito fã. E não vejo a hora de fazer minha tatuagem com o desenho dele!
Abração!
12 | Bruno Jaborandy
13 de September de 2011 to ● 5:04 PM
Pessoal, muito obrigado pelos elogios! O que vocês sentem lendo foi a mesma coisa que eu senti escrevendo!
Obrigado!
13 | Rosana Dias
21 de September de 2011 to ● 11:00 AM
Parabéns tanto ao artista Pedro Lucena, como a entrevista, ficou ótima! O tabalho deste grandioso artista merece todo o destaque! Parabéns!
15 | PERSIALDO FIGUEIRÔA
26 de December de 2011 to ● 12:23 PM
EU BEM SEI O QUE É VIVER DE ARTE AQUI, SE BEM QUE EM TODO LUGAR, É SEMPRE DIFÍCIL,MAIS FICO FELIZ PELO SUCESSO MERECIDO DO PEDRO, SEU TALENTO MERECE GANHAR O MUNDO.ABRAÇOS
16 | jack
24 de January de 2012 to ● 4:17 PM
Youre so cool! I dont suppose Ive learn something like this before. So great to search out any person with some distinctive thoughts on this subject. realy thanks for starting this up. this web site is one thing that