Rotas Musicais e bate papo com Móveis Coloniais de Acaju

Postado por: SIRVA-SE ● 03/12/2011

Por Mário Lamenha
Fotos por Vanessa Mota

Tinha acabado de escurecer e mesmo assim ainda era o dia mais quente do ano em Maceió. Às 18 horas a Sirva-se chegou ao Orákulo, uma das poucas casas de Show que sobrevive no bairro do Jaraguá, e tivemos uma desagradável surpresa. Até parecia história de pescador, um pneu furado no avião que traria a banda Móveis Coloniais de Acaju (DF) causaria um atraso de pelo menos duas horas no show. As outras bandas já haviam feito a passagem do som, então comecei a imaginar que aquele grande espaço vazio e silencioso em algumas horas estaria com algumas das melhores bandas alternativas brasileiras e com milhares de pessoas pulando e cantando em completa sincronia. Talvez por uma influência do nome do local, meu exercício de vidência se realizou.

O projeto Rotas Musicais, patrocinado pelo Programa Petrobrás Cultural e em Maceió co-produzido pela Popfuzz, tem como primeira parada Alagoas e de maneira incomum fez com que a cidade se movimentasse em uma quinta-feira. Aos primeiros sinais de pessoas chegando ao local, já dava para perceber uma grande diferença de público. Perdi a conta de quantas vezes escutei “Quem é essa gente que eu nunca vi na vida?”, uma demonstração de que o esforço em trazer bandas conhecidas nacionalmente, mesmo que do cenário independente, é recompensado com a renovação de público.

Pelo menos, o atraso inesperado do show me garantiu boas conversas com os integrantes da Dad Fucked And The Mad Skunks (AL). Em uma mesa cheia de garrafas de cerveja, o trompetista Luixx Eduardo fala sobre as influências da banda, regada de Punk, Ska e Reggae. Logo após chegou o baixista Bruno Jaborandy segurando uma Piña Colada, falamos dos tempos em que todos engatinhavam no Rock maceioense e de como algumas bandas que tinham potencial hoje tocam cover para sobreviver. Pouco tempo depois a Dad Fucked… subia ao palco, guiados pela autenticidade e humor do vocalista Rodolfo Lima, que após algumas corridas no meio do público lembrou “Não sou mais um garotinho de 18 anos”.

A Camarones Orquestra Guitarristica (RN) já se tornou uma constante na programação de alguns eventos alternativos em Maceió. Com um rock instrumental cru, ,uma guitarra forte e um baixo bem marcado, o quinteto potiguar descomplica a sua música, bastando o desejo primitivo de balançar a cabeça e levantar as mãos quando se estar empolgado para se divertir. Ao som do recém-lançado novo álbum Espionagem Industrial, as belíssimas e carismáticas Ana Morena e Kaká Monteiro fizeram com que ninguém ficasse parado.

Em 2009, a revista Época fez uma polêmica “denúncia” na matéria “A Revolta do Acaju nunca aconteceu”, sobre a invenção de um fato histórico para justificar o nome da banda. Para quem não conhece o caso, o Móveis Coloniais do Acaju assumiu a brincadeira com a origem do seu nome, que seria derivada de uma revolta ocorrida na Ilha do Bananal (TO) no início do século XIX, uma luta entre ingleses que procuravam “El Dorado” e índios da tribo Javaé, em que os Móveis Coloniais feitos de cedro eram destruídos pelos invasores ingleses.

Pois bem, apesar da revista Época ter noticiado dois dias antes em uma entrevista que o curioso nome viria de um fato histórico fictício, preferiu lançar esta outra notícia em seguida como uma grande descoberta, considerando o trote “desrespeitoso com os índios javaés, da Ilha do Bananal e do Estado de Tocantins, que têm uma história rica, que merece ser tratada com seriedade.” e aí sim começou uma verdadeira revolta.

Na minha opinião, a história desse país já é uma grande piada, que diversas vezes nem tem a menor graça, e indo nesse mesmo raciocínio muitos fãs indignados apoiaram a história lançando o movimento “Eu acredito na Revolta do Acaju”.

Com sua própria tribo de fãs, o Móveis Coloniais não precisa de fatos históricos para explicar a brasilidade de sua música. A banda formada por nove integrantes tenta se ajustar ao pequeno palco. O que já parecia um jogo de Tetris começa a ficar mais complicado ao ponto que nenhum deles fica parado. A solução simples encontrada pela banda para ter mais espaço livre foi descer para o meio do público, que em poucos segundos fica descontrolado e engole tudo o que está em sua frente. BC, guitarrista do Móveis, nos fala que nem sempre esse contato direto dá certo, “tenho medo de machucar o pessoal com o instrumento e às vezes está tão cheio que não consigo tocar, por isso fico no palco mesmo”.

Sempre trazendo uma energia muito boa, o Móveis Coloniais do Acaju subiram pela segunda vez nos palcos alagoanos com um repertório mesclado entre os dois CDs da banda. Com camisas coloridas e bem agitados, eles conseguiram construir uma identidade que ultrapassou a música e se transformou em um grande espetáculo. Era difícil caminhar entre as pessoas que dançavam freneticamente, o próprio BC falou que “o público no Nordeste é muito diferente, é bem caloroso”. A única crítica que escutei na noite foi por parte do público feminino, reclamando do visual mais comportado do vocalista André Gonzales, que tinha cortado o cabelo.

Acabado o show, tive que esperar um bom tempo para ter um contato com os caras, como de costume, muito dos espectadores foram pedir fotografias e autógrafos e, sem exceção, foram atendidos.

Encontro com BC e começamos a falar da gravação do primeiro DVD ao vivo no Auditório do Ibirapuera, dirigido por Marco Altberg e com apoio do Canal Brasil. BC me explica que eles tinham a intenção de ser bem fiel a musicalidade da banda para levar o show como é feito para quem não pudesse assistir, “você pode olhar que vai ouvir o Móveis do mesmo jeito que escutou hoje”. Com previsão de finalizar o terceiro CD da banda em 2012, BC me diz que, assim como no segundo álbum a participação do produtor musical Miranda foi decisiva para o produto final, a experiência com o produtor Dudu Marote vai resultar em um som mais simples, onde eles trabalharam muito a sonoridade de cada instrumento.

Me encontro em seguida com André Gonzales tentando desenhar uma caricatura na blusa de uma fã, formado em Design acabou não gostando do desenho que tinha acabado de fazer, “um dia eu aprendo”, brincou. Aparentemente cansado e bem suado, pergunto se ele não quer tomar uma cerveja para bater um papo, André me diz que não bebe nada alcoólico e que todo mundo faz a mesma cara de estranhamento com essa resposta por conta da animação dele no palco.

Depois de um bom tempo restrito à capital federal, o Móveis estoura no cenário nacional em 2004 com o disco Idem. Antes de terminar a pergunta clichê de qual era a principal diferença entre os dois álbuns da banda, André me replica “E o que você viu de diferente?”. Quem comparar os dois discos perceberá uma boa diferença nas letras e na relação que as músicas têm no próprio show, o primeiro CD é mais simples, já o segundo “tem o resultado lapidado, a gente precisou se entender como banda.”, respondeu o vocalista.

Em parte, essa diferença se deu pela saída de um dos integrantes da banda, Leonardo Bursztyn, que compôs boa parte das letras do primeiro disco. “No Complete a produção teve um processo totalmente coletivo e encontrou resultados que não esperávamos ter. O Leonardo era muito criativo e, falo por mim, que faz muita falta por guiar a banda. A gente teve que recomeçar quase tudo e andar com as próprias pernas. A letra da nossa música Indiferença reflete um pouco esse sentimento da partida dele e fala dessa nossa relação”. Outro ponto importante que André Gonzales falou do último CD foi que a sua realização foi pensada para o seu público “Acho que nunca falei isso, mas o tema do Complete foi o próprio processo de gravação e de entendimento da banda. Procurávamos passar para nosso público outro significado que não estava apenas na letra, algo que nascesse do próprio público, para o espetáculo.”.

Pode parecer bobagem, mas poucas bandas tem coragem de assumir que fazem um disco influenciado pelos fãs, ou pelo orgulho de considerar o processo criativo uma atividade muito pessoal do artista ou simplesmente por desconhecer o seu público. A sinceridade em assumir essa relação aberta em seus shows, seja ela natural ou planejada, se preocupando com seus fãs os torna uma banda diferenciada. “O Móveis é o imprevisível” foi assim que o André se despediu, subindo na van e caindo na estrada para prosseguir com os próximos shows da turnê do Rotas Musicais.

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2 Comments to "Rotas Musicais e bate papo com Móveis Coloniais de Acaju"

1 | CAMARONES E MÓVEIS EM MACEIÓ: COBERTURA DO SIRVA-SE | Camarones Orquestra Guitarrística

4 de December de 2011 to ● 12:00 PM

[...] LEIA MAIS E VEJA FOTOS DO SHOW Esta entrada foi publicada em Noticias. Adicione o link permanenteaos seus favoritos. ← CAMARONESTV: CENA ABERTA 2011 – CAMARONES CONVIDA [...]

2 | Suzana Gonçalves

5 de December de 2011 to ● 1:44 PM

Esse show foi fodaaaa! Mesmo exausta, me diverti horrores! :)

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