Cobertura Cine PE: Seguindo a luz

Postado por: SIRVA-SE ● 06/05/2012

Por Mário Lamenha
Fotos por Mariana Tavares

Nos 261 quilômetros ou 4 horas de viagem que distanciam Maceió de Recife, um novo caminho neste ano se mostrou como um atalho. Em sua 16ª edição, o Cine PE – Festival do Audiovisual, maior evento de cinema no Brasil no que se refere ao público.

No meio a acertos e pequenos problemas na organização, o slogan “Prepare-se para seguir a luz” nos inspira a entrar em uma vasta manifestação cultural que se apresenta além da exibição de filmes em um auditório lotado no Teatro Guararapes, localizado no Centro de Convenções de Pernambuco.

Na tentativa de ser um simples espectador do evento, logo se percebe que parte do grande sucesso do festival se deve a simbiose entre aqueles que participam diretamente dos filmes exibidos e o público. No hall decorado com “totens” da exposição Angeli vê o Cinema Nacional, onde o chargista ilustrou as maiores obras cinematográficas brasileiras, facilmente o público conseguiria ter contato com figuras importantes e de expressão do audiovisual. Utilizo o verbo no Futuro do Pretérito, pois nem sempre este contato é possível.

Ao mesmo momento em que o conhecido apresentador do Big Brother Brasil, Pedro Bial, um dos diretores Jorge Mautner – O filho do Holocausto (RJ), atravessava a sala VIP para o auditório de exibições cercado por seguranças, o ator João Miguel quase despercebido debaixo de seu chapéu Havana passeia com um simpático sorriso após a exibição do longa metragem que estrela, À beira do Caminho (RJ). Neste ambiente que define bem as questões em um país que ama a arte cinematográfica, mas ainda encontra dificuldades em consolidar a produção local, que a Sirva-se acompanhou o Cine PE.

Em uma noite quente de 31°, sem nuvens ou vento, a escura sala de cinema aparentava ser uma tentação maior pela sua refrigeração do que pelos filmes, ledo engano. Na programação original, aconteceria naquele momento a estreia do filme Xingu, com a direção de Cao Hamburger e produção de Fernando Meirelles. A película trata da história dos irmãos Villas Boas que partem em expedição desbravadora em encontro aos índios no Brasil.

Após o credenciamento somos informados que a programação teria sido alterada por conta de um problema técnico ocorrido na sessão de quinta-feira. O filme À beira do Caminho, concorrente da mostra competitiva de longa metragem, teria sido prejudicado por uma alteração no áudio. Por alguns boatos se soube que Breno Silveira, diretor do filme, ameaçou processar o festival e então o filme foi reexibido, dessa vez com o áudio perfeito.


À beira do Caminho narra os destinos cruzados de um caminhoneiro e de um garoto à procura do pai. Diante de alguns atritos os dois percebem seus pontos em comum. De início, o filme aparentemente emociona se utilizando de uma trilha sonora já diluída em nosso imaginário, em que as músicas de Roberto Carlos dão ritmo e significados às sequências de ações. Mesmo sem ultrapassar o clichê do drama carregado de lembranças e conflitos do passado no qual aos poucos os personagens evoluem, o longa metragem tem enormes méritos em adaptar um conto universal para realidade brasileira e contar com atuações impressionantes de João Miguel, Dira Paes e do garoto Vinícius Nascimento.

Pela infelicidade da alteração na programação, não pudemos acompanhar a homenagem que seria prestada ao cineasta Fernando Meirelles, nem mesmo trocar algumas palavras com o diretor na coletiva de imprensa, já que por compromissos o mesmo não pode comparecer. Mesmo munidos de credenciais que nos dava acesso à área VIP, não encontraríamos Meirelles em um recinto isolado com paredes de vidro.

O diretor passou todo o tempo possível nas exibições, talvez pela curiosidade natural que lhe parece ser de um espectador como todos naquela sala ou para evitar aquilo que parecia uma jaula cheio de pessoas com máquinas fotográficas. Nesta série de desencontros, de pés juntos uma colega jurou tê-lo visto sentado próximo à entrada do Cine PE comendo um pacote grande de pipoca salgada, somente me restando recriar esse momento na imaginação. Em 2000, Fernando Meirelles estreava no festival com o filme As Domésticas e depois de 12 anos era reconhecido por toda sua importância para o cinema nacional e internacional.

Por proibir a entrada de alimentos e bebidas no Teatro Guararapes, não se consegue perceber o cheiro marcante de pipoca amanteigada durante as sessões. Logo na entrada do teatro encontro Rafhael Barbosa, diretor do curta metragem Km58 (AL). Sem sua característica boina ou a costumeira calma cheia de sorrisos, Barbosa está tão tenso quanto o personagem de seu filme. Ele fala que precisa fumar um cigarro, talvez isso ajude no fato de que em poucos instantes o seu filme, naquela sala difícil de encontrar vagas, seria exibido para milhares de pessoas e para os mais importantes produtores nacionais.


No sábado o primeiro filme da Mostra Competitiva Curtas Digitais foi o documentário gravado em Pernambuco Maracatu Atômico – Kaosnavial (PE), dirigido por Afonso Oliveira e Marcelo Pedroso. Em diálogos entre o cantor Jorge Mautner e Mestre Zé Duda, o filme aos poucos mostra os mundos em que o Maracatu se formou e alcançou a popularização através da visão desses dois artistas. Além das músicas de Mautner, o ponto forte do filme é uma apresentação em que dois Mestres negociam uma apresentação com falas cheias de duplo sentido.

-  “É para tomar conta da sua roda?”
- “Não, senhor”
- “Mas quem não sabe assinar bota o dedo?”

O diálogo se prolonga, a plateia sorri e o filme se encerra com a letra eternizada por Chico Science homônima ao filme.

A tela escurece. Reconheço as logomarcas que aparecem e se apagam. Mesmo em uma proporção homeopática, entendo a preocupação de Barbosa naquele momento. Cheio de um orgulho e ansiedade também começo a sentir que aquele filme é parte de mim, não pela relação com a terra natal, mas pela trajetória que agora tinha sido trilhada. O filme se inicia e começa a sua história.

A sinopse ou storyline de Km 58 é direta e simples: “A estrada, um homem e o peso que ele carrega”. Em seus 20 minutos, o filme retrata a agonia de um homem consumido pela culpa, perseguido por si mesmo e por uma incômoda lembrança. Sem diálogos, o curta metragem é impulsionado por imagens simbólicas, a atuação expressiva de Igor de Araújo e a trilha sonora realizada por Nando Magalhães.

O clima de tensão em que o personagem está também nos envolve. Quanto mais se aproxima do clímax, mais se escuta um som recorrente do atrito das pernas inquietas com o couro das poltronas apertadas. Por conta de uma aparelhagem sonora de alta qualidade, a trilha e os efeitos sonoros ampliam a dimensão do filme. Sussurros e risadas que demonstram o momento de desequilíbrio do personagem pareciam ser dados por pessoas espalhadas pelo auditório, e mesmo já tendo visto o filme uma dezena de vezes este efeito inesperado me causou a sensação de estar definitivamente dentro daquela cena.


Em seguida era exibido o filme Até a vista (RS) do já conhecido diretor Jorge Furtado, provavelmente o maior representante do cinema na região Sul. O filme é uma ficção que relata a história de um jovem diretor de cinema à procura do seu primeiro roteiro. A comédia passa a se desenrolar quando Fernando (Cacá Velasco) viaja para a Argentina atrás do escritor Borges Escudero (Mauriti Ferrão) para que este lhe autorize os direitos autorais de seu livro.

As dificuldades de comunicação entre os dois personagens são representadas nas diferenças das línguas, metáforas da escrita e da imagem, até as ironias metalinguísticas do próprio ofício de se fazer cinema e os sonhos do escritor dão um ritmo atraente a um filme bem divertido.

Na manhã de sábado dirigimos-nos para a praia de Boa Viagem, no mesmo hotel em que uma semana antes Paul McCartney tinha se hospedado, para acompanhar a coletiva de imprensa do longa metragem exibido no dia anterior. Sentados em poltronas de estampa florida, Heitor D’Alincourt e Pedro Bial explicavam aos jornalistas espalhados todos os processos que se deram na realização de Jorge Mautner – O Filho do Holocausto. Obviamente, nas devidas proporções, o filme logo se tornou um fenômeno secundário e a vida profissional do diretor Bial veio à tona.

O jornalista do Estado de São Paulo, Luiz Carlos Merten, pede para fazer a próxima pergunta e prontamente recebe uma introdução da mais elogiosa de Pedro Bial, digna de uma poesia sobre protetor solar. Por vergonha ou não, Merten interrompe a descrição de como ele é o melhor crítico de cinema no Brasil com um simples “Tá legal”.

Em comparação a Meirelles, que precisou trabalhar no mercado publicitário durante alguns anos para juntar recursos, Merten questiona justamente se o empenho atual do jornalista também conhecido pelo bom tempo em que apresentou a “revista eletrônica” semanal Fantástico significaria uma retomada para o cinema, já que em 1999 Bial lançou Outras Estórias, filme sobre Guimarães Rosa.

Em resposta, Pedro Bial justifica que “adoraria fazer um filme por ano”, mas pelos compromissos que vão bem além do BBB e até mesmo por questões econômicas essa realidade ainda está um pouco distante. Quanto à figura do personagem ou persona do seu filme, Bial rebate algumas críticas que foram dirigidas ao documentário de que não era tão natural ou construía o cantor de uma forma que ignorava a questão de escolhas sexuais e drogas em sua vida.

Encontramos-nos em seguida com a equipe de Km58 para tomar um café, apesar do horário já sugerir um almoço. Para aproveitar o cenário e a luz, realizamos algumas fotografias na praia com a equipe reunida e conversar um pouco sobre como estava sendo toda aquela experiência. No calçadão, de repente um senhor de boné azul cumprimenta Rafhael Barbosa falando “gostei do seu filme”.

Barbosa está com os olhos molhados e agora sim não conseguia mais segurar o sorriso entre os lábios. Aquele senhor aparentemente anônimo era Cacá Diegues, diretor de Deus é Brasileiro e Xica da Silva. Mais tarde ainda teríamos outro encontro com Diegues, dessa vez sem tantas surpresas pegando carona em uma entrevista para a revista Graciliano, mas não menos emocionante.

No restaurante mais próximo nos arredores do Golden Tulip Recife Palace, os atores Igor de Araújo e Nilton Resende nos contam a aventura de se hospedar às cegas em Olinda. Igor até mais calado que seu personagem em Km58 lamenta sua estadia na suíte Júlio Bressane, que não tinha nada de cinematográfica.

Nilton se diverte com o fato de que, apesar do título de suíte, o local tinha apenas um banheiro coletivo e com uma bica no lugar de um chuveiro. “Um local bem rústico” – fala Nilton com uma risada teatral. Barbosa tinha outra preocupação. Seu nervosismo era tão grande durante a exibição do seu filme na noite anterior que o impediu de olhar para o rosto da plateia. Acredito que os comentários que escutou durante todo dia o ajudaram a diminuir esse receio.

De volta ao hotel, Cacá Diegues nos espera para uma breve entrevista. Vestindo uma camisa clássica de Nilton Santos, Diegues estava ansioso para ver mais tarde a final da Taça Rio entre Botafogo e Vasco. O diretor falou sobre sua infância em Maceió e de suas lembranças na praia da Pajuçara, onde viveu até a mudança para o Rio de Janeiro. O gelo da taça de Coca-Cola Zero já havia derretido e o diretor falou como era a relação dos seus pais com suas obras cinematográficas. “Papai sempre me apoiou no cinema. Falou pouco dos meus filmes, mas viu alguns. Minha mãe falava para eu fazer um concurso do Banco do Brasil, não acreditava muito em cinema.” – disse Diegues.

Já no Centro de Convenções de Pernambuco, Cacá Diegues recebia uma homenagem da mão de seu neto que durante a tarde ficou curioso com a máquina lomográfica colorida Holga 120 CFN da fotógrafa Mariana Tavares. Logo após a homenagem, o público conheceu mais alguns concorrentes do Troféu Calunga ou quase isso. César! (SP), curta metragem do diretor Gustavo Suzuki ou Suza, tem como temática uma vingança tramada por nerds vítimas de bullying realizadas por um playboy. O filme faz piadas sobre o universo juvenil marcado por mudanças e insegurança. As folhas (PB), de Deleon Souto, narra a relação especial de um garoto com uma árvore misteriosa, que demonstra a metáfora da morte da sua mãe.

O último curta acompanhado pela Sirva-se foi Di Melo – O Imorrível (SP), dirigido por Alan Oliveira e Rubens Pássaro, ele nos trouxe o atestado documental da existência de um dos mais importantes cantores da black music brasileira, porém pouco reconhecido.

Durante os últimos 30 anos, o cantor pernambucano Di Melo permaneceu esquecido no Brasil, porém sempre foi uma referência para diversos músicos estrageiros que louvavam seu único disco gravado. Charles Gavin, Junior Black e outros falam sobre a importância das músicas enquanto durante o filme estas se combinam com o próprio ambiente e história de Di Melo. O filme já teria o seu valor histórico apenas pelo resgate da figura, mas há ainda o humor que surge do contato com um personagem  totalmente cheio de falhas e mesmo assim cativante.


Com a presença de Hermila Guedes no palco, o evento apresentava o filme Boca (SP). O longa metragem relata a história de Hiroito Joanides (Daniel de Oliveira), conhecido criminoso que explorava o tráfico de drogas e prostituição na década de 60. A forte atuação de Daniel de Oliveira, quase irreconhecível por detrás dos óculos de aro grosso e fala pausada típica dos imigrantes paulistas, é o ponto de destaque do filme.

Outra falha na exibição acabou por interromper o filme no momento em que este parecia se tornar mais interessante. Desta vez um erro na montagem dos rolos acabou por avançar o enredo para a sua última parte. Em outra oportunidade, o filme Boca (SP) parece ser um bom programa cinematográfico.

Em meio a falhas e acertos na organização, de Neys Matogrossos ou Latorracas, de suítes com ou sem banheiro, de cineastas famosos ou meros iniciantes, o Cine PE é uma experiência incrível para quem admira o cinema.  Após todo o festival, encontro um senhor vendendo balas e chicletes sentando próximo à entrada do Teatro Guararapes. Em sua camisa uma frase que representa todas as pessoas que compartilharam deste momento no 16º Cine PE, “Eu segui a luz”.

Nesta semana foram divulgados os vencedores. Confira a lista:

MOSTRA COMPETITIVA DE LONGAS-METRAGENS
Melhor Filme: À Beira do Caminho (Diretor: Breno Silveira)
Melhor Diretor: Flávio Frederico (Boca)
Melhor Roteiro: Patrícia Andrade (À Beira do Caminho)
Melhor Fotografia: Lula Carvalho (Paraísos Artificiais)
Melhor Edição de Som: Alessandro Laroca, Eduardo Virmond Lima e Armando Torres Jr. (Paraísos Artificiais)
Melhor Montagem: Quito Ribeiro (Paraísos Artificiais)
Melhor Trilha: Bid (Boca)
Melhor Direção de Arte: Alberto Grimaldi (Boca)
Melhor Ator Coadjuvante: Vinícius Nascimento (À Beira do Caminho)
Melhor Atriz Coadjuvante: Divina Brandão (Paraísos Artificiais)
Melhor Ator: João Miguel (À Beira do Caminho)
Melhor Atriz: Hermila Guedes (Boca)

Prêmio Especial do Júri Oficial: Ao compositor e músico Jorge Mautner
Prêmio Especial da Crítica: Estradeiros
Prêmio Gilberto Freyre: À Beira do Caminho
Prêmio do Júri Popular: À Beira do Caminho
Prêmio Federação Pernambucana de Cineclubes: Na Quadrada das Águas Perdidas

MOSTRA COMPETITIVA DE CURTAS-METRAGENS
Melhor Filme: Até à Vista (Diretor: Jorge Furtado)
Melhor Diretor: Thais Fujinaga (Filme: L)
Melhor Roteiro: Jorge Furtado (Até à Vista)
Melhor Fotografia: André Luiz de Luiz (Filme: L)
Melhor Montagem: Bruno Bini (Depois da Queda)
Melhor Edição de Som: Pablo Lamar (Dia Estrelado)
Melhor Trilha: Everton Rodrigues (Até à Vista)
Melhor Diretor de Arte: Amanda Ferreira (Filme: L)
Melhor Ator: Felipe de Paula (Até à Vista)
Melhor Atriz: Sofia Ferreira (Filme: L)

Prêmio Especial do Júri: A Fábrica (Diretor: Aly Muritiba)
Prêmio Especial da Crítica: Isso não é o Fim (Diretor: João Gabriel)
Prêmio do Júri Popular: Depois da Queda (Diretor: Bruno Bini)
Prêmio Aquisiçao do Canal Brasil: Di Melo-O Imorrível (Diretores: Alan Oliveira e Rubens Pássaro)
Prêmio ABD-APECI: Na sua Companhia, de Marcelo Caetano, e L, de Thais Fujinaga
Prêmio Federação Pernambucana de Cineclubes: Qual Queijo você Quer?

MOSTRA DE CURTAS PERNAMBUCANOS
Melhor Filme da Mostra Pernambuco: Poeta Urbano (Diretor: Antônio Carrilho)

-2 menções honrosas para o filme Koster: ao ator Sérgio Menezes e ao diretor de Arte Dantas Suassuna (pela erudição da pesquisa e pela fantasia nas soluções).
-1 menção honrosa para Sandra Possani, atriz do filme Canção para Minha Irmã

Related Posts with Thumbnails

1 Comment to "Cobertura Cine PE: Seguindo a luz"

1 | nilton resende

6 de May de 2012 to ● 8:33 PM

mário,
discordo do que você falou sobre a interpretação do daniel oliveira.
para mim, ele estava muito ruim. o elenco todo estava muito superficial, parecia estar bem pouco à vontade, como se as personagens tivessem sido construídas na correria.

beijo.

Write Comment