Não lemos mais os manuais

Postado por: SIRVA-SE ● 21/01/2010

Por José Luiz Rios

Panço

Leia ouvindo:
Jason – Roda Gigante

Leonardo Panço é um cara inquieto. Ele toca na Jason, banda de hardcore do Rio de Janeiro, e além dessa atribuição, nunca está sem fazer nada. Ele agiliza vários trabalhos através do seu selo e distribuidora de entretenimento, que atende pelo nome de Tamborete Entertainment. Organiza pequenos eventos, participa de turnês, produz e vende seus materiais.

Recentemente, Panço lançou o seu segundo livro, intitulado “Caras dessa idade já não lêem manuais” – sua carreira literária teve como ponto de partida o lançamento de seu primeiro livro “Jason 2001: Uma Odisséia na Europa”, que narra as aventuras de sua banda pelo velho continente.

Após o lançamento, ele vem fazendo uma turnê literária com a divulgação desse trabalho, numa viagem semelhante ao rolê de outros escritores da cena punk nos Estados Unidos.

Em seu roteiro de viagem, uma das paradas foi aqui em Maceió. A Sirva-se fisgou o cara e o convidou informalmente para uma conversa após uma explanação que ele fez pra um público pequeno, mas bastante interessado em conhecer um pouco de suas histórias, suas andanças pelo mundo a fora, experiências com bandas e viagens, além da sua visão como uma pessoa diretamente envolvida, com a cena independente, lançando bandas, distribuindo materiais, entre outras coisas.

Nessa nossa conversa, o cara fala de tudo um pouco e relembra os principais motivos que o instigaram a escrever. Dá uma olhada nessa conversa aí, rapá!

SIRVA-SE: Pra começar eu queria que você explicasse um pouco como é que rolou o planejamento dessa turnê, e como é que você ta fazendo o processo de divulgação do seu livro mais novo?

PANÇO: Cara, o planejamento está mais ou menos parecido com o da turnê de uma banda, só que tem alguma coisa mais simples e outras mais difíceis. O mais simples é que sou eu sozinho, então os custos não são tão altos, e o mais difícil é que como não é o Jason, não tem show, não tem bilheteria, ou se tem é muito pouco. Então pelo que eu tô vendo, eu acho que vou ter que usar o dinheiro do lucro dos livros pra pagar os custos da viagem, então tem vantagens e desvantagens como sempre, né?

Para divulgar, eu tô tentando um método parecido com o que faço dos CDs, mando pra imprensa, faço uma entrevista aqui, ali, tô fazendo essa turnê, que já passou por muito Estados, não só do Nordeste. Ano passado, eu fiz novembro inteiro. Fui à Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, São Paulo, Americana, Bragança Paulista, Goiânia, Brasília e Belo Horizonte. Depois eu fiz no Rio de Janeiro uns três eventos diferentes. Fiz Resende e Barra Mansa, que são cidades do interior do Rio e agora estou aqui fazendo todas as capitais.

Panço

Surgiu de onde essa ideia, de fazer uma turnê, de lançar um livro?

Cara, indiretamente do Henry Rollins do Black Flag, da Rollins Band e do Jello Biafra do Dead Kennedys, que são caras que fazem turnês literárias nos Estados Unidos, são caras que eu ouvi falar, talvez os primeiros. Mas tem outras duas pessoas que eu gosto também que fizeram. Um deles é o Bukowski, um escritor alemão que já morreu, e morou nos Estados Unidos muito tempo. Desde criança, ele fazia muito. O outro é um cara que eu hospedei, que se chama Michael Board e é editor do Maximum Rock’n'Roll, um fanzine americano.

Quando ele ficou hospedado lá na minha casa, durante uma conversa, ele falou: “Pô, você acha bom fazer turnê com banda? E muito melhor fazer divulgando livro e tal”. É um cara que indiretamente me incentivou, eu sempre pensei: “Acho que quando eu fizer um livro, eu vou fazer uma turnê com ele”.

E agora eu tô começando outra coisa também, como sempre fiz com os discos. Tenho feito algumas trocas pra que outras pessoas tenham o meu livro em diversos lugares. Bandas estão viajando e levando o meu livro, então se você for na banquinha de merchandising do Confronto, tem o meu livro, o pessoal do Zeferina Bomba da Paraíba também distribui o meu livro, o Agrotóxico vai ter também. Eu já troquei um ideia  semana passada com o Felipe da Ideal Shop, com a intenção de ter mais uma loja online, porque a distribuição é muito ruim. É difícil atender um país do tamanho desse aqui, do tamanho de um continente.

Jason – Canção de chinelos virados

Você acha que a repercussão maior em cima do livro se dá pelo fato de ser escrito pelo Panço da banda Jason?

É, acho que sim. Sou eu de qualquer modo.

Você acha que o impacto é mais relativo à literatura em algumas pessoas ao contrário da música?

Não. Talvez o novo cara. É porque na verdade é assim. Eu tenho um pouco de dúvida se o que eu faço é literatura, não tenho certeza total. O primeiro, principalmente, é um diário de viagem de uma banda de rock, não sei se é considerado literatura como Gabriel García Márquez, um Saramago, Bukowski, Kerouac ou todos os caras que escrevem mesmo. Acho que é um diário, e eu não sei se as pessoas encaram muito como literatura.

O livro não saiu em nenhum caderno de literatura em nenhum jornal. Eu acho que é mais um cara do rock que escreve, como Henry Rollins. Eu não sei como funciona pra ele lá no exterior, Jello Biafra e tal. Outro dia eu tava me comparando um pouquinho com Fábio Massari, que é um cara que era VJ da MTV e tem três livros lançados, e eu acho que ele não se considera muito um escritor, eu acho que é mais um cara que “faz” livros.

Eu acho que está sendo mais encarado assim. O fato de eu ser não só do Jason, como também da Tamborete, acaba sendo o conjunto da obra, de impacto assim: “é um livro, de um cara que toca, que é jornalista, que tem a Tamborete, que tem o Jason, que faz turnês.” Aí meio que junta isso tudo, e daí recebe algum tipo de atenção pelo conjunto de tudo que eu faço. Eu acho que é isso.

Panço

Como é que foi o processo pra você lançar um livro? O seu selo, Tamborete também funciona como uma editora?

Na verdade, é só no nome. A Tamborete, não existe oficialmente, não existe um CNPJ, não é uma empresa. É só um nome que eu criei. Durante o tempo que eu era sócio do Rafael, que hoje em dia é dono da Deck Disc, a gente usava todos os documentos da empresa da Deck.

A Deck já existia, a gente usava as coisa dele. Quando ele saiu, eu passei a fabricar todas as coisas com o meu CPF, como qualquer mortal. Então, assim, é uma editora porque eu decidi chamar agora de editora, só por isso.

Quando decidimos pelo nome Tamborete, eu que acrescentei o nome “Entertainment” ali no final, e que quer dizer entretenimento. Antes de lançar o primeiro CD, eu já tinha a intenção de lançar livros, então ao invés de eu colocar Tamborete Music, Tamborete Records, Tamborete Discos, eu escolhi esse nome mais abrangente, eu nunca quis limitar.

Então, é novamente o conjunto da obra de coisas que são feitas em volta da Tamborete. Eu banco tudo. Esse último livro foi bancado com uma parte de dinheiro meu, com apoio da Áudio Rebel, que é um lugar de shows no Rio. O logotipo deles está no verso do livro. Eles me deram uma noite pra eu fazer o que eu quisesse que a bilheteria seria toda minha, pra ajudar no livro.

Não deu muita gente, mas rolou uns quatrocentos reais. Teve uma banda francesa que emprestou mil e quinhentos reais pra ajudar e metade do livro foi pago em cheque. O acordo que eu fiz na gráfica foi de pagar metade à vista e a outra metade dividida em trinta e quarenta e cinco dias. Então, eu tinha entre trinta e quarenta e cinco dias pra vender o valor da metade da grana que eu precisava pra cobrir, daí eu fui fazendo.

A outra metade da grana, que eu já tinha botado antes, eu fui vendendo ao longo do ano, ainda não sei se está pago, ainda tenho que fazer uns cálculos. Mas eu que banquei tudo, banquei a arte toda, o Flock, que é do Jason, foi quem diagramou, fez a capa. Ele trabalhava pra mim há dez anos, sem nunca cobrar nada, essa é a primeira vez que ele cobra, e já tava na hora até.

Jason – A Bela Canção

Você falou esse lance da Tamborete ser um selo, mas que não lança apenas música, e citou a questão de que nos Estados Unidos as pessoas fazem essas turnês literárias, o pessoal que é envolvido com Punk/Hardcore. Você acha que esses novos tipos de linguagens como filmes e livros são um novo modo de interação desse meio?

Cara, eu acho que sim. Agora, levando em conta que a gente está muito atrás dos caras lá da cena no exterior, das condições de vida da galera. Aqui por exemplo essa minha turnê do livro, não só a de novembro do ano passado, como essa, eu gostei muito de fazer. Não me arrependo em nenhum momento, quero ir ainda em outras cidades, fazer mais coisas ligadas a esse livro, mas eu já não tenho certeza se eu faria uma turnê do terceiro, é muito difícil, é muito caro fazer. Por exemplo, eu fui a Natal e vendi dois livros. Esses livros eu poderia ter vendido pelo Correio.

A repercussão é muito pouca, a repercussão de imprensa no Nordeste foi abaixo do que eu esperava, na maior parte das cidades. Eu não sei se faltou esforço, mas eu esperava um pouquinho mais, aí eu fico em dúvida: “Será que eu deveria fazer outra?”. Eu não sei, falta muito tempo ainda pra sair outro livro, pra eu voltar aqui, ir para o Sul novamente, mas eu acho que é uma nova maneira.

Uma coisa que me incomoda há algum tempo é a letargia. As pessoas não fazem as coisas. Eu que já toquei lá fora, vi em lojinhas alternativas onde você entra num catálogo. No site do Henry Rollins, por exemplo, da Alternative Tentacles que é a gravadora do Jello Biafra, cara a quantidade de livros é gigantesca. Aqui (no Brasil) a gente ainda não tem nem dez. Como é que pode um país desse tamanho e não ter dez livros aí pra vender (de pessoas envolvidas com o punk)? Tem o meu, o do Quique, (Guitarras e ossos quebrados), do Nenê (Altro), tem muito pouco.

Tem algo um pouco estranho nisso aí, num tem algo um pouco estranho? As pessoas não fotografaram? Elas pensam: “eu não vou fazer, ninguém vai comprar”. É um pouco frustrante quando você vai numa cidade a cinco mil quilômetros da sua casa, e vende dois livros. É frustrante, óbvio, mas eu não sei, acho que precisa ser esforçar ou insistir mais, eu realmente não sei.

Jason

Você acha que há uma saída legal pra venda de material independente aqui no Brasil, ou em outros países essa saída é maior?

Cara, eu acho que sim, acho que aqui no Brasil vende bastante material também. O Dead Fish vende, o Mukeka di Rato vende, eu vendo algumas coisas. Isso me faz acreditar que existe uma saída legal aqui sim. Num evento do porte desse que rolou aqui na cidade, sei lá, tinha umas trinta, quarenta pessoas, por essa quantidade você vê que eu vendi uma média de uns doze produtos, entre livros e camisetas. Se você for ver proporcionalmente, se eu vendi doze entre quarenta pessoas, é legal, não é ruim, é uma média de 30%, vamos dizer. Então, se você vai num show do Dead Fish que tem quinhentas pessoas, os caras vendem, de repente, oitenta, noventa camisas.

Não é ruim, só que o cara que montou a banda a pouco, nunca lançou nada, tocou muito pouco, menos de um mês, essa não vai vender merchandising, são mais as bandas maiores. Isso é tanto aqui, quanto lá fora.

Mas eu acho que tem, você vê num show do Confronto tem vinte tipos de camisas diferentes, todo mundo aposta nisso.

Jason – O elemento que eu represento

Você veio para o Nordeste como mais uma região do seu roteiro de viagem, ou por que vê o Nordeste como um lugar com diferencial?

É, eu nem sei mais quantas vezes que eu já vim ao Nordeste, eu acho que umas vinte, talvez. Eu vim tocando seis, vim pra alguns festivais convidado como jornalista, já vim como assessor de imprensa, já vim trabalhando para gravadora, vim por vários motivos.

Já dei várias entrevistas falando como eu gosto de vir tocar aqui com o Jason. Então, nunca, em hipótese alguma esteve cogitado que eu não viesse para o Nordeste com o livro, isso é inexistente. Sempre que eu puder, eu vou vir aqui, disso eu tenho total certeza.

Panço

Você acredita que está havendo uma preocupação maior em relação a uma atuação com uma postura mais profissional? As pessoas que produzem estão podendo viabilizar um trabalho de qualidade por um valor mais acessível e justo?

Eu, que tenho banda desde 1988, quando vocês ainda não estavam nem no pré-primário, mas eu conto mais a minha vida nesse negócio de 92 pra cá, que era quando eu tinha a Soutien Xiita. Se você for comparar 1992 com 2009, é absurda a diferença. De melhor. É muito melhor.

Em 92, você não ia num show e achava um Marshall, uma bateria boa. Hoje é muito mais fácil, em qualquer show tem. Hoje, você encontra uma Mapex que é uma batera legal e antigamente era aquelas bateras Golpe, eram baterias feitas à mão, lá em Caxias, lá perto de casa.

Se você for comparar, tem Internet que é um negócio genial, fantástico – só não é a maior invenção de todos os tempos, por causa do ar condicionado. Ela é um espaço bom demais, então, assim, a gente está muito melhor que em 92, só que talvez a Europa seja o nosso 2009 em 1992. Em 92 eles já tinha todos os bons equipamentos, já tinha os selos lançando coisas, já estavam muito a frente.

Se você vê o Confronto, eu acho, não tenho certeza, que é a única banda do Brasil de rock independente/underground que tem um carro próprio. Eles botam a bateria, os amplificadores, tudo. Eles chegam no palco, tiram tudo do local e colocam o equipamento deles. Na Europa, são todas, todo mundo tem uma van, ou tem um carro, tem o equipamento. Você vai num show com três, quatro bandas, o camarim parece uma loja de instrumentos. Tem cinco cabeçotes, três caixas ali, vários pratos, todo mundo trouxe as suas coisas.

Não tem a galera que chega aqui e pergunta: “Pô, cara você não tem um cabo pra me emprestar?”. Não, os caras tem cinco cabos, mesmo que só vá usar um. Tem haver com dinheiro? Tem! Mas tem haver também com organização, é parecido com aquela coisa do trem que sai às 14:18 e se você chegar um minuto sequer depois, ele não está mais lá.

A gente precisa ficar um pouquinho mais europeu, pra funcionar.

A entrevista completa está disponível para download aqui.

Related Posts with Thumbnails

15 Comments to "Não lemos mais os manuais"

1 | Crackinho

22 de January de 2010 to ● 12:24 PM

o panço é tão fofinho

2 | caíque

23 de January de 2010 to ● 2:00 PM

Massa a entrevista buzugo =]
queria ter colado lá no dia =P
ó..ele deixou livros com vcs?
c tiver avisa ai =]
abraço!

3 | Bruno Felix

25 de January de 2010 to ● 12:17 AM

Putz, o Panço é um cérebro atômico do mundo da arte e do entretenimento.

Sempre fui muito fã do trabalho dele com a Jason, até cheguei a tocar numa banda cover. E fui imensamente feliz de vê-los tocando ao vivo no Enecom 2004, em Fortaleza.

Imaginem a minha surpresa ao ver, no meu primeiro encontro estudantil de jornalismo, minha banda preferida de HC! Foi demais!!

Desejo muito sucesso pro cara, ele faz por onde merecer.

4 | Dr Godinho

25 de January de 2010 to ● 12:42 AM

MEU HEROI

5 | ViniBeni

25 de January de 2010 to ● 12:42 PM

“A gente precisa ficar um pouquinho mais europeu, pra funcionar.”

E precisa falar mais alguma coisa?

Fato isso! E um abrá pra ele!!!

6 | Paulinha

25 de January de 2010 to ● 1:32 PM

Enquanto muita gente tem vontade o Panço é daqueles caras que vai lá e faz.

Só precisa vir com a tour do livro pra Sobral-CE.

As fotos estão bem legais….

ps. ele é sim um heroi fofinho! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

7 | Tweets that mention Não lemos mais os manuais « SIRVA-SE -- Topsy.com

25 de January de 2010 to ● 10:05 PM

[...] This post was mentioned on Twitter by claudioamaral, Simone Evangelista, leonardo panço, Matheus Brito, Ive Môco and others. Ive Môco said: entrevista bacana com o digníssimo Panço, rapá. sou fã desse cara: http://sirvase.net/blog/?p=476#more-476 [...]

8 | monica ramos

26 de January de 2010 to ● 5:54 AM

Marasvilha!

9 | monica ramos

26 de January de 2010 to ● 5:55 AM

Maravilha, admirável este menino.

10 | Felipe

26 de January de 2010 to ● 9:34 AM

Esse cara é o mestre! No Brasil nego só vai dar valor para pessoas como Panço quando estiverem velhotes ou numa melhor. Enquanto isso quem colhe os frutos plantado nos anos 90’s são os calça colada, blarg.

Parabens ao Sirva-se pela entrevista e pelo site!

Felipe Ideal

11 | ThiagodeSouza

26 de January de 2010 to ● 11:12 AM

tio panço soltando o verbo! gracinha!

12 | ANdre

26 de January de 2010 to ● 12:34 PM

é nois Panço!!!! abra Andre

13 | Adelvan Kenobi

26 de January de 2010 to ● 5:34 PM

Leonardo Panço é “gente que faz”.

14 | Diogro

27 de January de 2010 to ● 2:57 PM

Ótima entrevista! só faltou dizer onde podemos comprar o Manual. Quer dizer, vocês, por que eu já tenho o meu!

15 | thiago babalu

4 de February de 2010 to ● 10:29 AM

massa as entrevista de panço pq é sempre verdadeiro nas respostas.
bacana bacana

Write Comment

Eventos

  • No events

Tags

Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player