Postado por: SIRVA-SE ● 18/11/2009
Após cinco anos de carreira, a banda Gato Zarolho transpõe as barreiras do mercado alternativo alagoano e grava seu primeiro disco, “Olho nu fitando o átomo”
Por Vanessa Mota
Leia ouvindo:
Gato Zarolho – A Inês é Morta
“Nós gatos já nascemos pobres, porém já nascemos livres”, versos compostos por Chico Buarque para a trilha sonora de Saltimbancos. Mal sabia Chico que os versos fariam tanto sentido para uma banda de Maceió. A Gato Zarolho, que também toca “História de uma gata” em seus shows, herdou dos felinos a nobreza, a capacidade de adaptar aos mais diferentes ambientes, o olhar apurado e, principalmente, a liberdade.
Liberdade para mesclar Samba com Rock, ritmos nordestinos com Chorinho, Reggae com pitadas de Bossa. O fato é que a banda consolidou seu nome em Alagoas a partir dessa mistura, às vezes inusitada, de influências. Essa diversidade está presente até no nome, o que poderia ser um defeito de formação vira ponto positivo. “Zarolho porque partimos da idéia de que podemos olhar pra mais de um lugar ao mesmo tempo”, define o vocalista Marcelo Marques.
A GZ, como é apelidada, hoje é formada por Yuri Pappas na bateria, Bruno Ribeiro no baixo, Vitor Peixoto nas guitarras, Bruno BR e Daniel Soares na percusão, e Giliane Santos dividindo os vocais com Marcelo, que também é responsável pelo violão, teclado, bandolim e escaleta. Assim como tantas outras bandas surgiu sem a pretensão de vir a ser algo maior.
“O núcleo inicial era constituído por mim, Igor Machado e por Bruno Ribeiro, que continua no projeto. O Igor que me chamou num dos corredores da Ufal, me vendo com um violão. A gente marcou uns ensaios com um baterista amigo deles e pronto, o primeiro germezinho estava colocado”, diz Marques.
Porém, a banda só tomou formato mesmo algum tempo depois. “Após esses primeiros ensaios, Bruno passou um tempo fora, foi tocar com a Ôxe em São Paulo. Enquanto isso, eu, Igor e Daniel, que também faz parte de um primeiro momento da banda, nos encontrávamos e compúnhamos algumas coisas. Cerca de um ano depois, quando ele retornou, já tínhamos um bom número de canções”, relembra.
Em 2004, aconteceu o primeiro “grande” show. A Gato Zarolho participou de um tributo a Che Guevara no Museu da Imagem e do Som (Misa). Para isso tiveram que ensaiar e se dedicar mais, e foi daí que surgiu a vontade de fazer algo mais sério, mas sem forçar a barra. Nesta época, contavam com o guitarrista Bruno Queiroz, atual Maqiavel, que depois acabou por sair da banda, assim como Igor, um de seus precursores. Outros chegaram. Giliane veio logo depois do primeiro show, Yuri Pappas passou a compor a banda em meados de 2005, após participação de show na Feira de Artesanato do Nordeste (Artnor), e Vitor Peixoto, que pouco depois assumiu as guitarras. Bruno BR deixou de ser um membro ‘flutuante’ a assumiu a percussão junto com Daniel. Todas essas idas e vindas deixaram sua marca no que a banda é hoje.
Depois de feitos alguns registros esparsos de suas músicas, decidiram então que era o momento de fazer um CD. Foi inspirado nessas canções já gravadas que a Gato Zarolho tomou a iniciativa. O grande número de canções no repertório foi o principal impulso. “A intenção inicial era fazer uma gravação bacana pra montar, com três ou quatro músicas, uma demo. Mas daí a gente dizia ‘tal música poderia ser legal de gravar’. Isso é muito bacana com a gente: tudo foi muito natural”, diz.
Gato Zarolho – Samba Safado Prum Dia Triste
O processo durou cerca de três anos. Foi interrompido por diversos motivos, entre eles, problemas financeiros, além da falta de tempo, o que acarretou em muitas transformações dentro de sua construção: “Três anos gravando o disco são também três anos de mudanças na nossa cabeça. É por isso que eu acho que o Olho nu fitando átomo é uma espécie de coletânea, uma antologia”.
A escolha do repertório reflete isso. São registra os diversos momentos do grupo, formando um elo entre as suas fases, que se inicia em “A Inês é morta”, primeira música gravada, passando por “Fabula Trancosi” e “João Sakura”, que mantiveram um pouco do som acústico, lembrando o regionalismo característico da época do início da carreira, e termina em “Bossa atômica”, que é considerada por Marcelo, como um refinamento dessa mistura de ritmos, que é a principal proposta do projeto.
Os traços do passado não foram esquecidos. Somente passaram a ser divididos com outros elementos, que tornaram, em alguns momentos, a sonoridade da Gato Zarolho mais pesada e barulhenta. Isso acabou por deixar algumas músicas de fora, um exemplo é “Sozinha jornada marinha”. “A ‘Sozinha jornada’ faz parte dum tempo da banda que já é outro. É bem bacana, mas há uma coisa adocicada nela que, hoje, me parece destoar. Digo isso sem querer dizer que é uma música ‘passada’; é só de outro tempo”, declara.
A falta de recursos, assim como na gravação, foi o principal entrave para divulgação. Os apoios foram conseguidos a base de muito esforço, incentivado pela confiança que os integrantes depositavam no projeto. O baterista Yuri, que também é artista gráfico, preparou todo o material de divulgação e o site. “Levamos esse material, com indicações de nossos endereços eletrônicos e mais outras coisas. Recebemos muitos ‘nãos’, mas o Orákulo comprou a causa por saber que a banda, mesmo jovem, já tinha uma certa aceitação com um público interessante, o resto foi indo. O Sesi patrocinou colocando nosso VT antes da seções de cinema”.
A disponibilização do disco inteiro para download no site da banda (www.gatozarolho.com.br) é justificada pela vontade de fazer com que um número maior de pessoas tenha alcance ao resultado final. “Não temos gravadora nem grandes contatos, nós não pensamos em ter enormes retornos financeiros com o cd físico. O objetivo é possibilitar a um número mais amplo de pessoas a audição do trabalho, coisa que um cd físico, por si, não dá conta hoje em dia”.
Agora, a banda pretende alçar vôos maiores. Já estão finalizando seu primeiro clipe, de “A Inês é morta”, produzido pela Panan Filmes, que deverá ser lançado em novembro ou dezembro. A principal pretensão é fazer o trabalho ser ouvido por outras platéias, em outras cidades e estados. Marcelo defende a quebra de barreiras do regionalismo, ao mesmo tempo em que se mostra aberto para novas possibilidades sonoras. “Faz sentido defender uma raiz profunda? Gosto de pensar que entre o sertão e o Alasca, os homens não tem três mãos. Isso parece nos irmanar mais. A radicalização é mais perigosa do que assumir que somos, todos, cidadão do mundo”, defende. De fato, gato nasceu é pra ser livre.
Mais Gato Zarolho:
www.gatozarolho.com.br
1 | Bruno Rodrigues
18 de November de 2009 to ● 3:41 PM
muito boa a matéria. Gato Zarolho é uma das melhores coisas que surgiu nos últimos anos. Realmente uma banda para se aplaudir de pé.
e parabéns pelo Sirva-se! massa.