UM PUNKADEMIC NA UFAL: punk rock, hardcore e muitos, mas muitos, livros

Postado por: SIRVA-SE ● 12/06/2012

Por Bruno Jaborandy
Fotos: Arquivo pessoal

Quem está inserido no universo do punk e do hardcore de alguma maneira sabe que alguns personagens considerados expoentes desse tipo de música são o que se pode chamar de acadêmicos. São pesquisadores e professores universitários. Um dos discos mais significativos da história do punk/hardcore se chama ‘Milo Goes to College’, ou seja ‘Milo vai pra faculdade’, da banda californiana Descendents. O título do disco é uma alusão ao fato de que o vocalista da banda, Milo Aukerman, foi para a Universidade da California, em San Diego, para estudar bioquímica. Atualmente Milo ainda faz parte da banda e já tem doutorado na área.

Podemos lembrar ainda de Greg Graffin, vocalista do Bad Religion, uma das bandas que tem as letras mais intelectuais (só ler a letra de ‘Generator’ pra você entender do que estou falando…), que tem doutorado em Evolucionismo pela Universidade Cornell e Dexter Holland, do The Offspring, mestre em biologia molecular. Mas o que será que une essa paixão entre punk, hardcore e academia?

Para entender um pouco disso me encontrei, no auditório do mestrado de Ciências Sociais, para conversar com João Bittencourt. Nascido em Maranguape, Ceará, João tem muita história para contar. Enquanto era aluno da graduação fez parte da banda Mercado Negro, da qual era vocalista e compositor. A ideia da banda era transmitir conhecimento por meio das letras. Foi também uma das primeiras bandas do Nordeste a ter membros que se consideravam straightedge, ou seja, que possuíam uma postura política de não consumir qualquer tipo de droga, ilegal ou não, além de posicionarem-se em questões como a globalização e questões políticas locais.

Atualmente João não tem mais banda e é professor da Universidade Federal de Alagoas e já tem alguns projetos de pesquisas com alunos para estudar a cena punk além da cultura jovem. É muito bom ver esse tipo de iniciativa, que busca renovar os ares da academia, com suas estruturas tradicionais já empoeiradas, e colocar novas ideias na roda. Essa entrevista é especialmente bacana para você, leitor ou leitora, que está naquele momento da vida em que ainda não se sabe um caminho a seguir. Leia, pesquise, aproveite:

Pra começar, queria que você me contasse quando começou sua paixão pelas ciências sociais e o que te levou a fazer esse curso?

Como boa parte dos jovens quando cheguei ao Ensino Médio veio aquela coisa de encontrar um caminho pra onde ir. Eu sempre tive uma quedinha pelas ciências da área de Humanas, História, Geografia, eram as mais evidentes, como muitos jovens eu também tive interesse em uma literatura mais politizada, meu primeiro livro de cabeceira foi o 1984 do George Orwell, que eu li no ensino Médio, assim como algumas coisas mais políticas como O Príncipe do Maquiavel, aí eu fui pegando gosto, fui me interessando, sempre fui muito curioso também, então eu decidi fazer inicialmente o curso de Geografia.

E como foi a experiência?

Fiz a Graduação em Geografia e, tateando ali, não sabia muito bem do que se tratava, eu fiz umas disciplinas que eu detestei (risos), até que eu fiz uma disciplina de Introdução a Sociologia, e me apaixonei por isso, resolvi mudar de curso com 1 ano e meio de Geografia, cursados. Aproveitei pouquíssimas disciplinas.

Paralelo ao curso de Ciências Sociais, eu estava envolvido no mundo da música, eu tinha uma banda, um projeto independente, uma banda de hardcore chamada Mercado Negro e a gente tinha como proposta a transmissão de mensagens políticas, tentávamos passar alguma coisa para as pessoas que iam nos shows. Então, nesse momento eu poderia dizer que as Ciências Sociais e a música casaram ali, eu sempre brinco falando com meus amigos que foi o Rage Against the Machine que me levou para as Ciências Sociais. Como todo jovem eu tinha ídolos, e na década de 90 o Zack de La Rocha se colocava como um grande símbolo de rebeldia política, e minha identificação se deu pelo fato dele ter sido estudante de Ciências Sociais.

Então eu ia pras aulas e ao mesmo tempo cumprindo minhas atividades com a banda também, a gente foi ganhando uma certa repercussão, um público foi sendo formado, e a gente sempre fazia apresentações em manifestações, eu lembro de uma que fizemos num evento organizado pelo grupo Critica Radical, outro evento em praça pública que criticava a obrigatoriedade do pertencimento a Ordem dos Músicos do Brasil, enfim, sempre tocamos em muitos eventos de características mais politizadas, só que como tempo foi passando eu fui chegando no final do curso e me deparei com a velha dúvida : o que é que eu vou fazer agora? Então eu terminei o curso de Ciências Sociais, defendi a minha monografia, um trabalho bem bacana. Eu estudava e a tarde eu trabalhava num Telecentro, onde eu tive a oportunidade de desenvolver essa pesquisa.

Envolvendo música?

Não, não, na minha monografia eu trabalhei com a experiência de jovens nos Telecentros Comunitários, onde jovens tinham acesso a internet e, logo em seguida, eu já engatilhei no Mestrado, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, com uma temática completamente diferente. Foi um momento bem bacana onde eu saí de casa pela primeira vez.

Como foi esse momento, de sair de casa?

Eu sempre falo com os mais jovens que é um momento importante, o de cortar o cordão umbilical porque depois vai ficando mais difícil, quanto mais cedo a gente corta, melhor, daí foi meio complicado porque pela primeira vez eu morei sozinho, era eu que tinha que cozinhar, lavava as minhas roupas, eu que organizava os meus horários, então, assim, tudo isso era muito novo mas eu encarei como desafio.

Fiz muitos amigos também envolvidos com a cena roqueira da cidade, porque antes de eu ir para Natal eu já trocava correspondências com a turma, por cartas, eu produzia zines, então eu mandava, a gente trocava flyers, de shows, então quando eu cheguei eu fiquei na casa de um cara chamado Alexandre Falante , não sei se você já ouviu falar, ele é uma figura, um cara muito conhecido na cena underground do Rio Grande do Norte e do Nordeste também. Ele tinha uma banda chamada Raça Odiada e eu fiquei na casa dele, ele me recebeu de braços abertos e a gente construiu uma bela amizade, que dura até hoje.

Eu passei esse período em Natal, um ano, aí eu tive que voltar pra Fortaleza porque eu precisava fazer uma pesquisa de campo, porque no Mestrado eu trabalhei com a Cultura do Medo, a segregação sócio-espacial, de como se dá a construção do personagem estranho pelo olhar de moradores de um bairro de classe média alta da cidade de Fortaleza, isso sempre foi uma coisa que me chamou muito a atenção, e quem quiser ler basta ir na Biblioteca Digital da UFRN, que está lá disponível pra download.

Então foi chegando o final do Mestrado, eu pensei: – Agora vou continuar. Logo em seguida eu já engatilhei, fiz o concurso para a Unicamp, seleção do Doutorado, com um projeto muito amplo onde eu queria estudar a juventude, novas formas de expressões políticas pegando esses grupos dessa cena punk/hardcore como objeto de estudo, então eu não sabia muito bem o que eu queria, mas na seleção eles gostaram muito da proposta, talvez pela maneira que eu escrevi o texto, pela novidade da temática. Entrei no programa de Doutorado em Ciências Sociais da Unicamp, bem colocado e esse foi um processo decisivo na minha vida onde eu tive a experiência de jovem universitário, vamos dizer assim, as pessoas dizem que a graduação é o momento em que a pessoa experimenta isso com mais intensidade, de morar com os amigos, ter essa experiência fora de casa, mas foi na Unicamp que eu me deparei com essa experiência, do jovem que mora na república, eu fui com minha atual esposa, ela foi fazer mestrado e eu fui pro doutorado, nós tínhamos nos conhecido na graduação.

Ela também fazia parte da cena musical?

Não, não, ela é das Ciências Sociais, e nós fomos juntos pra São Paulo, conhecemos pessoas de vários países, contatos maravilhosos e tive realmente o privilégio de fazer uma pesquisa com bastante tranqulidade, pois foram 4 anos realmente dedicados a pesquisa, afastado da família, sem outras atribuições, onde eu pude me aprofundar nesse universo. Defendi a tese no ano passado e nela eu fui estudar os straightedges.

Meu interesse por esse universo veio bem antes, acho que antes mesmo de eu terminar a graduação, quando eu conheci esse estilo de vida, através de cartas que eu trocava com jovens de São Paulo e do Rio de Janeiro, e numa dessas cartas me chegou um informativo, falando dessa postura. A partir desse material eu fui me guiando, fui conhecendo as bandas também e, em determinado momento, eu me vi como straightedge também, porque eu já não bebia, já não fumava e tinha toda aquela identificação com aquele estilo de vida, no primeiro momento eu não queria me rotular, porque como em qualquer outra coisa, isso te dá uma certa responsabilidade, isso gera uma cobrança das outras pessoas, que ficam te policiando também.

Então você já era straightedge antes de se dizer um?

Sim,isso se iniciou no final da graduação, mas eu não tinha nem interesse em pesquisá-los até então. No final do mestrado eu já estava me desvencilhando dessa identidade e desse estilo de vida e eu fui vendo como alguns amigos assim como eu estavam se desvencilhando disso de uma maneira até sofrida porque eles criavam uma auto-defesa que era até interessante, e passavam a criticar esse estilo de vida, até a atacar os demais jovens e querer, uma coisa que era muito marcante, tomar o seu primeiro porre e de tornar isso público também, como se fosse um rito de passagem. Eu via tudo aquilo e, apesar de estar me desvencilhando, eu não via necessidade disso, eu não queria fazer isso, mas fui me interessando por um viés mais antropológico e sociológico desse estilo de vida, pois é algo que deve marcar muito os jovens, então eu resolvi estudar os straightedge pensando justamente em como se dá essa construção desse estilo de vida principalmente com a idéia de estudar um pouco os discursos que são construídos nas atitudes desses jovens, estudar o discurso do coletivo.

E essa pesquisa com os straightedge, como é que ela foi feita?

Foi um trabalho antropológico e etnográfico intenso. Eu sempre gostei de fazer pesquisa de campo, desde a graduação eu acho um grande ganho para a pesquisa social, a proximidade do pesquisador com o objeto de estudo, porque é justamente isso que leva você a conhecer eles de perto, não apenas só através da conversa, mas através da observação, da relação deles com outros grupos, então como eu já tinha um contato com eles eu tive um apoio para ter acesso ao campo, diferente da pesquisa de mestrado, onde eu estudei moradores de um bairro de classe média alta de Fortaleza, então foi muito difícil principalmente porque eles eram muito reservados, então imagina você tocar uma campainha e dizer que você é um pesquisador, que está desenvolvendo uma pesquisa de mestrado. Sorte que minha sogra mora no espaço e ela me ajudou com a entrada no espaço. Com os straightedges eu comecei a participar das Verduradas que são os maiores eventos talvez da América do Sul de straightedge, naquele formato: música, palestras e jantar, o que é algo bastante interessante. Então eu fui em várias Verduradas e fiquei próximo deles ao ponto de me ligarem para dar um rolê, por exemplo, pela Augusta, sair com eles, conversando sobre outras coisas que não eram só sobre straightedge, então eu fiquei amigo deles, alguns deles se tornaram grandes amigos.

E permanecem amigos?

Sim, continuamos amigos, e pelo fato de eu conhecer um pouco de música punk e conversar sobre isso com eles talvez tenha os deixado mais tranqüilos para a gente poder conversar, porque eles se fechavam muito para o trabalho de alguns jornalistas que, na tentativa de exotizar, faziam perguntas que deixavam eles meio chateados, do tipo exotizando os símbolos que eles traziam nos corpos, pra que serve isso? Pra que usar isso?

E hoje em dia você continua sendo straightedge?

Faz sete, oito anos que não mais. Quando eu andava com eles eu sempre dizia isso e eles encaravam isso numa boa. Eu nunca presenciei, embora eu saiba que há, qualquer tipo de sectarismo.

Naquela série de documentários do Kiko Goifman, da série Hiper Real, da TV Sesc, o Juninho Sangiorgio (Discarga, Ratos de Porão) fala que no começo da Verdurada tinha alguns conflitos com alguns caras que não respeitavam as especificidades do evento. Você chegou a presenciar algo assim?

Na verdade isso é algo que ficou identificado com um determinado momento. Como o straightedge era novidade, aqui no Brasil a coisa começou a ganhar espaço em meados dos anos 90, 1996 por aí, segundo o Pedro (I shotCyrus, O Inimigo), tinham alguns straightedge em São Paulo e eles compravam revistas, iam na Galeria do Rock comprar material, mas, depois da passagem do Shelter pelo Brasil em 1996/1997 foi o boom do straightedge no Brasil, o que tinha de garoto com x na mão em show…

Virou pose?

É, virou moda juvenil, como inúmeros outros estilo de vida semelhantes, era a época em que o clipe de ‘Here We Go’ do Shelter tocava na MTV, mas eu não vi, embora eles me contassem que houve brigas, porque a Verdurada era uma proposta totalmente inovadora, chegava num espaço onde não se consumia nem álcool nem cigarros, pra fumar e beber você tinha que sair do local, o Galpão Jabaquara, que foi obrigado a fechar, era um espaço muito interessante, tinha um galpão e uma quadra e era muito comum você ver uns jogando bola na quadra e outros fumando um cigarro na arquibancada, então o espaço disciplinador era o galpão do show, então, muitas vezes eu vi jovens fumando e bebendo nas proximidades onde acontecia o evento,  sem grandes problemas.

E seu trabalho aqui na UFAL, como é que está sendo, você já tem muitos orientandos?

Olha, ta bem no começo, ainda sou um novato na casa, passei no concurso para professor efetivo em dezembro de 2010, tanto que eu ainda não tinha defendido a tese, mas eu cheguei e só fui apresentado mesmo como professor a partir do segundo semestre de 2011 onde eu trabalhei com as do curso de Ciências Sociais,  eu já tenho alguns orientandos da graduação, e um orientando do Mestrado, que estuda a relação dos jovens de baixa renda com o consumo, na graduação, tem um que estuda a cultura punk, outro que estuda torcidas organizadas, as pessoas que estudam juventude tem me procurado, eu estava com uma parceria com outro professor da casa, mas que infelizmente teve que ir para outra instituição e eu fiquei meio sozinho por aqui, mas é uma experiência bem interessante, agora eu estou tendo a oportunidade de ministrar a disciplina de “Sociologia da Juventude” no Mestrado.

E o que representa para você ser professor, tem um significado especial?

Tem sim, independente do romantismo que envolve a figura do educador eu acho que é impossível você se ver na condição de mestre, não falando de títulos, mas de condição mesmo, você ter inúmeros alunos, que prestam atenção ao que você fala e você sabe que eles estão no processo de aprendizado então é muito gratificante, chegar no final do semestre e eles chegam para você e te falam coisas boas, dizem que gostaram da disciplina, que querem fazer outra disciplina, que querem dar continuidade a carreira acadêmica, me vêem como uma espécie de estímulo, isso é muito gratificante.

E você tem feito trabalhos com jovens de outros departamentos, que não sejam das Sociais?

Acontece de haver parcerias, mas por enquanto nessa disciplina tem alunos de outras áreas, como educação, direito, etc. Recentemente, fui convidado para fazer parte do Mandacaru, que é um grupo de pesquisa sobre gênero, sexualidade e direitos humanos e construímos uma linha de pesquisa no campo das relações entre juventude, infância e velhice, e terei a oportunidade de conhecer alunos de outras áreas, porque tem pessoas de Direito,Psicologia, Serviço Social.

E o projeto Intacta Retina, do que se trata?

É um projeto maravilhoso que eu me orgulho de estar participando. Antes de entrar na UFAL eu já conhecia o projeto, porque um dos coordenadores fez mestrado comigo na UFRN, é um grande amigo, quando eu fui aprovado em seguida ele já me colocou como coordenador do Intacta Retina, que é um  projeto que é realizado todos os meses, são ciclos de debate, já estamos no quarto ciclo, que vai se chamar ‘Corpo, Cultura e Fases da Vida’. São sempre dois filmes e a terceira atividade é uma mesa redonda com a participação de professores e desde o ano passado a gente está tendo também vídeo-conferência, então a gente convida as pessoas de outras instituições, o que está funcionando bem. Temos um público bem fiel, que está sempre presente, porque as temáticas são extraídas de filmes, e filme é uma linguagem artística que muitas pessoas gostam. Essa coisa do filme é um atrativo, então eles participam, discutem, é uma experiência maravilhosa.

O que você diria para um garoto ou uma garota que querem seguir a área acadêmica, que conselhos você daria?

Primeiro eu diria a ele é pra ser perseverante porque é um investimento a médio e longo prazo, se você está muito apressado em obter uma estabilidade financeira a curto prazo. Você precisa de pelo menos 10 anos para concluir os estudos, (4 de graduação, 2 de mestrado e 4 de doutorado)além de tempo hábil, tem que gostar muito de ler, ter muita disposição, não só disposição física mas também psicológica para poder agüentar o tranco, no mais, não tem muito segredo.

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5 Comments to "UM PUNKADEMIC NA UFAL: punk rock, hardcore e muitos, mas muitos, livros"

1 | arthur

12 de June de 2012 to ● 1:51 PM

alguém sabe informar qual o dia e horário em que acontece esse projeto do Tiago e do João, o Intacta Retina??
Legal a entrevista!

3 | João Carlos Neves

13 de June de 2012 to ● 9:23 AM

Prezado Arthur, o projeto de extensão “Intacta Retina” acontece às sextas-feiras, com periodicidade quase quinzenal, sempre às 15:00, no auditório do CEDU/ UFAL. No blog do projeto você pode acompanhar as datas das atividades, bem como informações gerais sobre o projeto:

http://www.intactaretinaufal.blogspot.com

4 | Joaquim Prado

13 de June de 2012 to ● 3:58 PM

João é um exemplo de vida, me orgulho muito tê-lo como amigo!

5 | João

14 de June de 2012 to ● 2:37 PM

Valeu, Joaca! Saiba que a recíproca é verdadeira. Beijão.

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