Entre o sublime e a maldição

Postado por: SIRVA-SE ● 11/02/2010

Por Victor de Almeida

Labirinto

Leia ouvindo:
Labirinto – Arcabuz

De uns tempos para cá, percebemos um crescimento substancial de bandas que fazem um som puramente instrumental. O estilo hoje constitui umas das cenas mais fortes em expansão do país e, ao contrário do que muitos pensam, existe um público que consome preferencialmente este tipo de música.

Longe da saturação do que se convencionou a chamar de post-rock, a banda paulistana Labirinto investe em uma mistura com outras formas de expressões artísticas e em um esquema de auto-gestão que põe no saco muita gravadora grande. No final, tudo significa uma coisa: música.

A banda, que surgiu em 2003, já gravou três EPs: Cinza, em 2006, Labirinto, em 2007, e Etéreo, em 2009. Participou de uma coletânea: Dis #1, em 2008 e de um split, Pseudo-segurança Compensatória, em 2005.

O som é um emaranhado de influências, desde bandas ícones da música instrumental como a Silver Mt. Zion, God Speed e Explosions in the Sky até cinema conceitual, realismo fantástico, fotografia e outras formas de arte. Tudo contribui para a criação do “labirinto estético” proposto pela banda.

Donos de sua própria música, de seu próprio selo, de sua própria distribuidora, de seu próprio estúdio e de seu próprio local para shows, eles, hoje, contam com uma pequena cadeia produtiva para a produção e distribuição de música que vai desde a gravação do disco, à prensagem; da venda do material ao agendamento de shows, sempre com foco na sustentabilidade e em iniciativas cooperadas.

Porque o lance é o seguinte, quando se fala em mercado independente, recai na velha máxima punk do “faça você mesmo”, mas isso não quer dizer que o material tem que ser tosco ou mal feito. Quando o assunto é disco, álbum ou EP, a banda é inteiramente responsável pela confecção do material, desde fotografias que ilustram o material à montagem e concepção do todo. Foi assim com Etéreo, lançado em edições feitas à mão e em cópias numeradas, e com a Dis#1, coletânea que conta com quatro bandas da nova música instrumental e novos artistas visuais.

Hoje, a Labirinto conta com Daniel Fanta (guitarra), Pedro (baixo), Erick Cruxen (Guitarra e efeitos), Muriel Curi (Bateria), Matheus Barsotti (Bateria) e com o alagoano, Joaquim Prado (Guitarra e Sintetizadores).

Enquanto as gravações de Anátema não terminam, Erick Cruxen falou com a Sirva-se e contou como anda esse novo momento da Labirinto, projetos para o futuro, uma possível tour pelo Nordeste e música, é claro!

Labirinto – Silêncio Póstumo

SIRVA-SE: No meio do ano passado vocês lançaram Etéreo, EP que antecede a saída do primeiro disco completo Anátema. Todas as músicas do EP foram gravadas anteriormente, mas refletem um novo momento da banda, certo? O que podemos esperar de Anátema?

ERICK CRUXEN: Sim, o EP Etéreo apresenta uma amostra das composições que virão em Anátema. A construção e o desenvolvimento das harmonias, dinâmicas, arranjos e efeitos se tornaram mais complexos em relação aos primeiros EPs da banda. Anátema será um disco conceitual, cujas músicas narrarão uma história que criamos. Além das músicas, desenvolvemos toda arte do álbum em função dessa narrativa.

Labirinto

Para Etéreo, as músicas, segundo vocês em outras entrevistas, foram compostas a partir da criação de paisagens sonoras. Esse processo para vocês é novo ou já é posto em prática desde o início da banda, em 2005?

O Labirinto sempre buscou outras linguagens e formas de expressões artísticas, para compor, produzir seus discos e realizar seus shows. Contudo, esses mecanismos tornaram-se mais naturais e presentes. Procuramos fazer músicas para imagens, buscando influências além da música. Nossas referencias vêm de diversas formas de manifestações artísticas, como o cinema, a literatura, fotografia, enfim, diversos meios com os quais convivemos no cotidiano.

Segundo o dicionário, Etéreo significa algo “sublime, puro, elevado”, enquanto Anátema, “condenação, repreensão, maldição, execração”. Existe algo que une o significado dos dois trabalhos? O disco tem algum conceito que derivado dessa idéia?

Ótima observação. Etéreo marcou uma fase de afirmação do Labirinto para nós mesmos. Com ele, conseguimos compreender a nossa própria música. Ficamos muito satisfeitos com as composições que gravamos, e por todo resultado que conseguimos com o EP. Anátema será a ruptura irrequieta dessa sublimação.  Esperamos que a maldição/condenação seja entendida, mediante a audição das músicas e a observação da arte desenvolvida para o álbum.

Ainda sobre o EP Etéreo, vocês o disponibilizaram para download gratuito no site. No tempo em que muito se fala sobre suportes para consumo da música, vocês acreditam nessas plataformas livres para difusão do material? Anátema será distribuído da mesma maneira?

Certamente, esse é o melhor meio para as bandas divulgarem suas músicas, principalmente as alternativas. É muito gratificante saber que o Labirinto é escutado, em diversos lugares do mundo.

Devido ao caráter conceitual de Anátema, e da própria integração das músicas, com a toda arte desenvolvida, o lançaremos em mídias físicas diversas.  Provavelmente, também será disponibilizado na internet.

Labirinto

E como anda a gravação do disco? O que já foi feito e o que ainda está por fazer?

Estamos preparando Anátema, há quase dois anos, nos preocupamos muito com as composições, arranjos, efeitos e a qualidade das gravações, e mixagem, além da arte. Procuramos experimentar diversos timbres, sonoridades, instrumentos, e dinâmicas. Passamos um ano inteiro trabalhando na pré-producão das músicas, e agora estamos com mais da metade do disco gravado. Grande parte do processo de gravação pode ser acompanhado no blog de Anátema (www.labirinto.mus.br/anatema).

Sabemos que no meio independente é difícil falar de prazos. Mas existe alguma previsão para o lançamento de Anátema?

(Risos) Já não é mais previsão. Lançaremos Anátema em meados de 2010!

A Labirinto tem uma organização que poucas bandas no cenário brasileiro têm. Vocês gravam o próprio material, prensam e distribuem com selo próprio, e, além disso, lançaram as edições nacionais do God is na Astrounat. Como a banda se organiza nesse esquema de auto-gestão dos trabalhos?

A maioria da banda se formou musical e politicamente na ideologia do “faça você/nós mesmos”. Tentamos utilizar essas referências em nossos projetos. No Brasil, é muito complicado você ter qualquer atividade empreendedora, principalmente nas esferas cultural e artística. A Dissenso é uma tentativa de não dependermos dos eventuais meios de produção, distribuição e divulgação. Procuramos sempre parcerias, com selos, artistas, produtores e bandas que compreendam e apóiem esses objetivos, sem negligenciar a qualidade de seus trabalhos.

Labirinto

Por falar em God is an Astronaut, como surgiu o contato como os irlandeses? Como é o relacionamento de vocês com outras bandas de fora do país?

Conhecemos o Niels, um dos membros da banda, em um site, onde nos mandou um elogio muito bacana sobre o Labirinto. A Dissenso manteve contato com a banda, distribuindo seus CDs no Brasil, e produzindo material para eles comercializarem em seus shows.

Através da Internet, entramos em contato com diversas bandas muito boas. Algumas delas esperamos ver no Brasil, em breve.

Labirinto – Temporis

A Dissenso é um dos trabalhos paralelos dos integrantes da banda. Além de lançar os discos da Labirinto, de projetos de integrantes e de outras bandas parceiras, o selo foi responsável por um lançamento bastante comentado no meio alternativo, que foi a coletânea DIS#01. Como nasceu a idéia de juntar alguns expoentes dessa nova cena instrumental e uni-los à artistas visuais para criação de um conceito de imagem e som?

Há tempos,  alimentávamos o desejo de lançar uma coletânea com bandas, e artistas que admirávamos. Contudo, não seria apenas uma coletânea de bandas, mas sim um projeto audiovisual, em que poderíamos mesclar música e trabalhos gráficos experimentais, em mídias diferentes, mas em um mesmo produto. Realmente, ficamos muito satisfeitos, com a boa repercussão e os elogios, recebidos pela DIS#1.

Para o final do segundo semestre, a Dissenso lançará o segundo volume da DIS.

Voltando a falar sobre a Labirinto… Boa parte do material divulgado no site da banda é traduzido para o inglês. São esforços para divulgação da Labirinto no exterior? Como andam os contatos fora do Brasil?

Recebemos muitas mensagens e contatos vindos de diversas partes do mundo. Para podermos nos comunicar com esses ouvintes, tentamos traduzir as informações mais relevantes sobre a banda. Devido principalmente à internet, estabelecemos um bom intercâmbio com sites, blogs, bandas e selos estrangeiros.

Labirinto

Estamos no primeiro mês de 2010, muitas idéias para o ano que está apenas iniciando. Para a Labirinto, quais são os principais planos para este ano?

Pretendemos lançar e realizar alguns shows de divulgação do Anátema. Estamos acertando uma turnê para o segundo semestre pela Europa. Antes, faremos  apresentações em cidades brasileiras, entre elas, algumas do Nordeste, onde temos muitos admiradores e amigos.

Mais Labirinto:
www.labirinto.mus.br
www.myspace.com/labirinto

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2 Comments to "Entre o sublime e a maldição"

1 | Diego Albuquerque...

12 de February de 2010 to ● 11:02 AM

Ficou massa mesmo a materia toda. A banda é bem legal ao vivo, esperem pra ver por ai, se for rolar mesmo essa subida pro NE.

:)

2 | Adão

3 de March de 2010 to ● 2:46 PM

Se meu pai também me desse um monte de instrumento bom e um estúdio pra ensaiar, eu faria uma banda melhor que essa. Abr’s.

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