Postado por: SIRVA-SE ● 03/04/2010
Texto e fotos por Herbert Loureiro

Rolou nesta terça feira, 30 de março, a abertura da coletiva “Refrações – Arte contemporânea em Alagoas”, na pinacoteca do Espaço Cultural da UFAL. A exposição aponta e celebra a produção artística do estado. De Delson Uchôa à Renata Voss, o espaço mixa obras em diferentes suportes de já consagrados artistas com talentos em ascensão do Estado.
Este é o caso da AP 401, de Lucas Barros. Criada em meados de 2007, a marca vem ganhando exposição não só no cenário local, mas até nacional, por se utilizar da roupa como suporte para experimentação, sempre buscando novos resultados em suas lavagens e estamparia.
A ideia da coleção, intitulada Santo, apresentada na exposição surgiu a partir das memórias de infância de Lucas. O pontapé inicial são as tradicionais festas de santo do interior do Estado. Mas, é difícil conseguir distinguir o que está representado ali. Há uma subjetividade muito forte na imagem criada pelo estilista e para entender o que aquela história conta é necessária no mínimo uma explicação. Talvez seja essa a melhor parte.

Para contar sua ideia, o estilista utiliza cada modelo como metáforas das memórias afetivas de infância. É interessante perceber que não há uma paleta mestra para a coleção, cada look delimita suas próprias cores, a lembrança distinta de cada momento. A estamparia vem singela, tendo como foco principal o estudo das texturas e é desenvolvimento que emerge à memória a aparência da casa dos avós – e daí a mímese das texturas de nervuras de madeira, paredes descascadas e adornos de móveis antigos.
Nesta coleção a estamparia vem fragilizada, com sutis momentos figurativos como as micro-chaves e as nuvens que pontuam as “memórias”. Uma das mais interessantes histórias contadas na coleção é sobre a flor do maracujá, o Santo. Segundo a avó de Lucas, a flor do maracujá representa a santíssima trindade, o divino, pelo simples fato de que há um fio que sempre se divide em três neste tipo de flor e a crença se traduz de forma mais bonita possível no look do vestido roxo com franjas em que a estamparia – a flor do maracujá em si – tem seu próprio tempo de vida. Trabalhada em serigrafia a imagem “nasce” de forma perfeita e vai de desgastando com sua utilização. É como se a estampa contasse sua própria trajetória.

Além de todas essas sutilezas, há algo crítico que pode ser mais notado. Talvez por ironia o paletó masculino tenha sido transferido para o guardaroupa feminino quase que sem alteração. Na busca de resoluções é possível que isto tenha surgido na inversão de “papeis sociais” dos indivíduos. Essa inversão, que em geral tem uma força maior nas cidades do interior, da mulher ter a mesma força de trabalho que homem, daquela mulher que é Pai e Mãe, que trabalha o dia inteiro, cuida dos filhos e tenta sobreviver. Ponto positivo.
As ressalvas ficam por conta do formato da apresentação, que de fato, foi prejudicado. A quantidade de informação contida nas salas era de grande tamanho, além da grande quantidade de público presente. Além disso, o próprio público não foi informado do que seria aquilo. Não havia release. Certo que o desfile não era a obra principal da exposição, mas não houve ambiente, a trilha era inaudível. A atmosfera que poderia ter sido alcançada acabou por não acontecer. Além disso, a apresentação se deu em paralelo com outras performances.

Para um desfile sem explicações, onde a beleza escolhida não era fácil (mas era muito bonita mesmo assim: modelos cobertas por camadas de poeira, como se tivessem sido guardadas por muito tempo) o saldo é bastante positivo. Primeiro pelo simples fato do reconhecimento da curadoria de que moda pode sim ser suporte para arte. Segundo pelo crescimento artístico e intelectual da marca, que desenvolve seu já conhecido vocabulário de camisetas para peças mais autorais e que dão margem à maiores possibilidades para contar novas histórias. E por fim ao artista que abre ao público suas memórias e transforma aquele produto de certa forma banal em algo que tem algo a dizer.
SERVIÇO:
Refrações – Arte Contemporânea em Alagoas
30 de março a 28 de maio
Pinacoteca Universitária (Espaço cultural Universitário Salomão de Barros Lima)
Pç. Visconde de Sinimbu, 206 – Centro
2ª, 4ª e 6 – 8h30 às 12h30 / 14h às 18h
3ª e 5ª - 8h30 às 12h30 / 14h às 20h
1 | » Blog Archive » AP no Sirva-se
4 de April de 2010 to ● 11:01 PM
[...] Vejam o que a galera do Sirva-se achou do desfile: pra ler a crítica cliquem aqui. [...]
© SIRVA-SE.
Desenvolvido com Wordpress | Design: estúdio Alba.